2 de setembro de 2011

Impression, soleil levant

A foto que que ilustra Impressões impressionistas de Edmilson Siqueira é uma representação do quadro Impression, soleil levant de Claude Monet. Pintado em 1872, o quadro que deu nome ao movimento impressionista é considerada por muitos como a mais importante obra de Monet e representa o nascer do Sol no porto de Le Havre.


Ao ser exposto pela primeira vez, um crítico zombou da tela e do título, dizendo que tudo ali era “impressionista”. Mal sabia ele que os artistas da época adorariam o nome e o adotariam para o movimento. A obra Impression, soleil levant faz parte do acervo permanente do Musée Marmottan Monet de Paris.

Musée Marmottan Monet
2, rue Louis-Boilly
Metrô: La Muette linha 9
Tel.: 01 4496 5033
Aberto de terça a domingo das 10h00 as 18h00. Às quintas até as 20h00.

31 de agosto de 2011

Impressões impressionistas

Edmilson Siqueira

O bom de estar em Paris, além de tudo que a cidade oferece, é que em pouco menos de uma hora você pode estar em Giverny, onde Monet criou um jardim que parece uma grande pintura e depois o colocou em quadros que ficaram ainda mais bonitos que o jardim. Aquela impressão nublada que aquele mundo de folhas, flores, céus e sóis nos dá em suas obras é o sonho do jardim que você vê ao vivo. Estar ali, passeando e admirando a “outra obra” do artista, é como penetrar num quadro dele para se deliciar naquele turbilhão de impressões e cores.

Estivemos lá, Zezé e eu, em 2002. Na margem esquerda do Sena (ou era direita? Eu sempre confundo, pois sinceramente não sei qual é uma ou outra) havia uma pequena agência de turismo que fazia (deve fazer ainda) várias excursões diárias até Giverny. Você podia ir até a agência e pegar uma van ou contatá-la desde o hotel, que ela ia lhe buscar. Era mais barato ir até lá, claro. E um passeio naquela região, margeando o rio, cheia de artistas nas calçadas valia muito mais que esperar a van no hotel.

Em cerca de uma hora estávamos em Giverny. Um lugar afastado, sem muitas casas, muita natureza domesticada, calmo e silencioso. A van nos deixou em frente à casa, de onde ainda não se vislumbra o jardim. O motorista, um jovem com menos de 25 anos, avisou todo mundo - em francês e inglês - que às 17h estaria de volta. Tínhamos umas quatro horas para ficar ali. E foi pouco.

Compramos os ingressos e entramos, passando direto para o jardim onde o encanto daquelas paisagens nos esperava. Um riacho serpenteia todo o jardim e, para ultrapassá-lo, há aquela famosa ponte japonesa que qualquer admirador de Monet já viu em seus quadros.

Andamos, sentamos num banco, comemos um sanduíche, andamos de novo, voltamos por onde entramos, começamos o trajeto de novo e, houvesse tempo de sobra, faríamos novamente o mesmo percurso, pois sempre descobríamos algo novo, uma árvore que passou sem que víssemos, uma folhagem já amarelada, um raio de sol em outra posição causando novas sombras e novas luzes, enfim, estávamos assistindo, 76 anos depois de sua morte, à produção de vários novos quadros de Monet a todo instante. Acho que disse pra Zezé que foi pra isso, mais do que para as obras que produziu ali em vida, que Monet criou aquele jardim: para imortalizar suas impressões todas, de forma dinâmica e inusitada, pois cada visitante, ao entrar e andar pelo jardim, pode imaginar o que o gênio de Giverny estaria fazendo agora, como ele estaria transformando as novas folhas e flores e sóis e sombras em espetáculos visuais encantadores.

Monet viveu naquela casa - que hoje é seu museu - e naquele jardim por 43 anos, até morrer em 1926. Para construir o jardim comprou o terreno ao lado da casa e contratou seis jardineiros. Já eram dias de fartura, seu trabalho já era admirado reconhecido depois de muita pobreza e sofrimento.

Na casa-museu estão vários quadros seus - cópias perfeitas já que os originais estão em museus famosos e muito mais seguros. Há um bazar onde estão posters de quadros de vários tamanhos e preços e muitas outras lembranças.

A volta foi em silêncio. Por certo todos na van - havia três casais se bem me lembro - estavam a digerir aquele mundo de beleza impressionante e, principalmente, impressionista. Os outros casais ficaram em seus hotéis e Zezé e eu prosseguimos até a sede da agência. Um bom papo com o motorista, sua preocupação com o aumento de imigrantes em Paris e os efeitos dessa imigração na política (efeitos que se consumaram, diga-se, e ajudaram a afastar partidos de centro-esquerda do poder), marcou o retorno. Ficamos por ali, passeando às margens do Sena, até que uma chuva fina caiu e resolvemos sentar num café com cadeiras na calçada, ao abrigo da chuva.
Uma taça de vinho, uma tarde caindo, uma chuvinha fina, Paris à sua volta e as impressões de Monet rondando seu cérebro. Isso deve ser algo muito próximo ao paraíso.

Paris celebra os 110 anos do metrô

Na última segunda-feira 15 de agosto o metrô de Paris completou 110 anos de funcionamento. Apesar de atrasado, o Viver Paris não poderia deixar de prestar sua homenagem, já que este que vos escreve é um entusiasta incondicional do metrô parisiense.

A linha 1 do metrô de Paris foi a primeira linha metroviária a operar na França. Inaugurada em 1900 para a Exposição Universal, a linha percorria na época o trajeto entre as estações Porte de Vincennes e Porte Maillot. Atualmente, a linha 1 é também a mais movimentada dentre as 16 linhas operadas pela RATP e até 2012 será a segunda a contar com operação completamente automatizada - atualmente a linha 14 é única da rede a operar com automatismo integral.

Em Paris as ruas, avenidas e boulevares foram literalmente rasgados para a passagem do metrô. Por isso a maior parte das linhas subterrâneas acompanha o traçado das ruas na superfície.

Os primeiros estudos para a construção do metrô de Paris começaram em 1845. Porém, a obra só foi concluída anos mais tarde sob o comando do engenheiro Fulgence Bienvenüe - conhecido na França como o pai do metrô. Foi ele quem em 1895 desenvolveu o ante-projeto do que viria a ser, de fato, o metrô parisiense.

Fulgence Bienvenüe diante da entrada da estação Monceau.

Ao longo de sua vida Bienvenüe colecionou inúmeras homenagens em reconhecimento aos seus feitos notáveis dedicados ao metrô de Paris. Entre elas, o título de Cavaleiro da Legião de Honra da França, a Grande Medalha de Ouro de Paris e até uma estação de metrô foi batizada em sua homenagem: a Montparnasse-Bienvenüe. Um selo postal também foi editado em sua memória em 1987 e hoje é objeto disputado por colecionadores de todo o mundo. Mesmo tendo perdido o braço esquerdo durante uma obra, Bienvenüe trabalhou praticamente até o final de sua vida, atuando como engenheiro conselheiro da cidade de Paris até sua aposentadoria definitiva em dezembro de 1932 aos 80 anos de idade. O pai do metrô de Paris morreu em 3 de agosto de 1936 e repousa na divisão 82 do Père-Lachaise.

Homenagem a Fulgence Bienvenue em Uzel, cidade natal do engenheiro.

Engenharia a parte, as elegantes edículas que ornamentavam as entradas das estações em estilo art nouveau foram projetadas pelo arquiteto Hector Guimard. Ainda hoje algumas dessas belas edículas podem ser vistas em Paris. As edículas Guimard também já ganharam um post só para elas aqui no blog.

Amor a primeira vista: Foi pela estação Place de Clichy (linhas 2 e 13) que andei pela primeira vez no metrô de Paris.

Como na época não existiam as modernas perfuratrizes conhecidas como tatus para cavar os túneis do metrô, as ruas e avenidas de Paris eram totalmente abertas e escavadas para a colocação dos trilhos e a construção de plataformas. Ao término da construção, tudo era coberto com terra e concreto e a avenida era novamente pavimentada. Pois é Joãozinho, como já dizia o seu vô Eupídio "quem quer faz!" - e em Paris foi assim.

Até a década de 40 eram assim os bilhetes de metrô em Paris.

Atualmente o metrô de Paris se estende por 211km de trilhos distribuídos em 16 linhas e 298 estações. A rede metroviária de Paris atende diariamente cerca de 4,5 milhões de usuários e emprega mais de 15 mil pessoas.

Plataforma da estação Olympiades da linha 14, a linha mais moderna da rede.

O termo metrô usado em diversos países do mundo é originário da abreviação do nome da companhia que operava o sistema de transporte subterrâneo de Paris na época de sua construção, a Compagnie du Chemin de Fer Métropolitain de Paris - popularmente conhecida como Métro.

Fête de la Gastronomie

Joãozinho, se você estiver em Paris em setembro pode abrir sua agenda e comemorar: está marcado para o dia 23 de setembro a primeira edição da Fête de la Gastronomie - o evento nacional que vai celebrar a diversidade e o patrimônio da gastronomia francesa.

Além de proporcionar muita diversão, a data visa estimular o cidadão comum a cozinhar e com isso desenvolver valores como o convívio social, a partilha e a generosidade.

Em moldes similares ao da Fête de la Musique, na Fête de la Gastronomie chefs estrelados apresentarão seus menus exclusivos pelas ruas do país, cozinhando para qualquer pessoa que se interessar em experimentar seus pratos. Os organizadores ainda pretendem estimular o convívio entre os turistas e os habitantes locais, promovendo a troca de receitas e de informações culinárias entre pessoas de todo o mundo.

Boeuf bourguignon: a materialização do deleite supremo.

A cada ano a Fête de la Gastronomie deverá abordar uma temática diferente. A primeira edição do evento tem como tema o planeta Terra - o que deve inspirar os chefs a explorar a diversidade de sabores do mundo na culinária francesa. Simplesmente imperdível.

Para saber mais acesse o site oficial do evento clicando em: Fête de la Gastronomie.

17 de agosto de 2011

La pétanque au coeur de Paris

Foto: C. J. Peters, Paris, 2004

Aos 60 do segundo tempo

Edmilson Siqueira

Fiz 60 anos domingo passado e, se os deuses do Olimpo tivessem me ouvido, tê-los-ia comemorado em Paris. Não, não seria uma comemoração em Paris com toda a pompa que o nome sugere. Seria um dia como outro qualquer que mereceria um vinho talvez um pouco mais caro num café do Quartier Latin ou de uma colina de Montmartre, adivinhando os espíritos sombrios que por ali já passaram e que, por certo, estariam rondando minha mesa. Minha não, nossa. Zezé estaria ali, com certeza. E talvez um ou outro amigo que tivesse feito por lá. Não sou de fazer amigos, talvez a idade tenha me tornado meio ranzinza e acabo muitas vezes perdendo a paciência.

Ah, a falta de pompa também se daria porque eu não teria ido para lá só por causa da data. Eu já estaria lá e “comemorar em Paris” seria apenas uma consequência da mistura do fato geográfico com o calendário gregoriano que vivemos.

Eu teria ido a Paris um ou dois anos antes, satisfeito porque finalmente as finanças teriam permitido o sonho se realizar. Teria alugado um apartamento em qualquer margem do Sena, mesmo longe do Sena, com vista para qualquer coisa, pois qualquer coisa seria Paris, mesmo que fosse o prédio em frente.

Já falaria francês fluentemente, pois teria frequentado aulas como um colegial aplicado e, sempre que possível, puxaria uma conversa com alguém só para saber o que já conseguia entender. Porque uma coisa é a professora lhe falar pausadamente para que você entenda a lição do dia. Outra é a voz das ruas, do cidadão comum que não está nem aí com o fato de você ser estrangeiro. Assim, fazendo de toda Paris um enorme livro da língua de Victor Hugo e de cada conversa uma pequena aula, eu já manjaria até uma porção de gírias. A prova de fogo teria sido em algum jardim de Paris, onde senhores aposentados passam o tempo jogando pétanque, aquele jogo que se parece com a bocha. Parece, não, é o mesmo, talvez só mudando o tamanho e o local dos campos. Sentar ali, apreciar o jogo e entender tudo o que eles falam, seria a prova final do meu curso.

Em domingos de sol - primavera ou verão, não importa - aprontaríamos uma sacolinha com uma toalha, alguns queijos, uma saladinha num tapeware, umas frutas e uma garrafa de vinho branco que saberíamos manter gelado, e iríamos ao Parc Floral curtir um show qualquer no seu auditório ao ar livre. O gramado abrigaria a toalha e nossos corpos sentados, ouvindo uma boa música, comendo um bom queijo e bebendo um bom vinho. Na saída não haveríamos de nos preocupar com o carro parado lá fora. Ele estava seguro sem a necessidade de “guardadores” que exigem pagamento adiantado para não guardar nada. Isso se tivéssemos carro, porque o Metrô nos levaria até a poucos metros do parque e, na volta, nos deixaria “pertindicasa”, com diz um amigo mineiro.

Na volta, poderíamos escolher um cinema, um teatro, um casa de jazz ou fazer um passeio a pé mesmo, que cada esquina tem um cartão postal pronto para ser admirado.

Meus 60 anos foram comemorados sábado passado, com alguns familiares e amigos e amigas no meu apartamento em Campinas. Foi uma noite alegre em que tive a sensação de estar entrando de vez para o rol dos “idosos” quando minha filha me perguntou: “Ô pai, agora você pode estacionar naquelas vagas maneiras do shopping?” Pois é, fiz meu cadastro na prefeitura e logo mais terei o cartão de idoso que me dá o privilégio. Não, não é Paris e não há um jardim para se jogar pétanque em segurança por aqui, mas já é alguma coisa.

Où est Charlie by Max et Charlotte

Minha amiga Bárbara Marques enviou de Paris uma dica supimpa para compartilhar com vocês aqui no blog - é a exposição fotográfica Où est Charlie by Max et Charlotte que fica em cartaz até o dia 19 de setembro em Bercy Village.

Para que ainda não associou o nome à pessoa, o Charlie em questão é o personagem conhecido no Brasil como Wally - da série de livros Onde está Wally de Martin Handford.

A exposição transfere o Charlie das ilustrações ao mundo real através da fotografia, nos convidando à sempre difícil tarefa de encontrá-lo em cena.

Vai aí Joãozinho, você não é do 'jiu-jipsu'? Então ache o Carlie escondido no d'Orsay.

Vá com a família e tente descobrir a cada nova foto onde raios está Charlie. Desta vez o personagem aparece escondido em diversos locais de Paris - como por exemplo o Musée d'Orsay, a Gare de l'Est, a piscina de Pontoise, o Jardin de Luxembourg, a Opéra Garnier e a própria Bercy Village - em cenários sempre coloridos e repletos de pessoas e objetos que dificultam ainda mais a brincadeira. Além da diversão, as fotos das locações parisienses valem o passeio.

Difícil mesmo é encontrar o Charlie na Gare de l'Est.

A exposição é diversão garantida com entrada gratuita.

O cartaz da exposição foi clicado pela Bárbara, as demais fotos publicadas no post são do site oficial de Max e Charlotte. Você pode conferir essas e outras fotos em tamanho maior (claaaro...) clicando em Max et Charlotte.

Quem não gostou muito dessa idéia da dupla de artistas de Gobelins foi o meu amigo Rodrigo Barreto. Durante anos ele posou de Charlie, fotografando a ele próprio escondido na capital francesa - apesar de muito engraçadas e bem tiradas, suas fotos ainda não ganharam uma exposição em Bercy. Esperamos que um dia ele decida publicá-las no Viver Paris para a nossa felicidade.

Exposição Où est Charlie by Max et Charlotte
Bercy Village
28, rue François Truffaut
Tel.: 01 4002 9080
Metrô: Cour Saint-Emilion linha 14
Até 19 de setembro. Entrada gratuita.

16 de agosto de 2011

Distribuidor automático de pães no XIXème

Uma idéia simples e criativa implementada em Paris está fazendo o maior sucesso entre os moradores das imediações do Parc des Buttes-Chaumont - trata-se do primeiro distribuidor automático de pães da cidade.

A máquina que fica diante de uma simples boulangerie de bairro localizada na avenue Mathurin-Moreau vende diariamente baguettes quentinhas a qualquer hora do dia ou da noite. Basta você botar uma moedinha de 1,00€ na máquina et voilà la baguette.

A máquina funciona mais ou menos assim: aproximadamente 100 baguettes pré-assadas são colocadas em um compartimento refrigerado da máquina onde os pães podem se manter em perfeitas condições por até 72 horas. Pouco a pouco os pães são transferidos automaticamente a um forno integrado ao aparelho, onde são assados no ponto certo para que cheguem quentinhos e crocantes às mãos do freguês. Quando as baguettes assadas estão acabando, a própria máquina se encarrega de transferir novos pães da geladeira para ao forno, iniciando mais uma fornada.

Olha que prático Joãozinho: moedinha de um lado, pão quentinho do outro.

Graças à novidade, o boulanger Jean-Louis Hecht (que aparece orgulhoso na foto menor ao lado de sua criação) aumentou as vendas da baguette em 80 unidades diárias.

Sede do Partido Comunista Francês: Niemeyer a dois passos da boulangerie.

Ah Joãozinho, aproveite que está na rua e mesmo que não tenha pretensões políticas, dê uma espiada na sede do Partido Comunista Francês que fica logo ali pertinho na place du Colonel Fabien. Construído em 1971, o edifício é a materialização de um projeto de 1965 do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer e é catalogado como monumento histórico francês. Se conseguir ingressar no edifício, vale saber que o teto oferece uma vista fantástica de Paris.

Bolangerie Mathurin
20 avenue Mathurin-Moreau
Metrô: Colonel Fabien linha 2

Siège du Parti Communiste Français
2 place du Colonel Fabien
Metrô: Colonel Fabien linha 2