
Edmilson Siqueira
Marcus Vinicius, um amigo jornalista com quem trabalhei no século passado (Mon Dieu ! Faz 30 anos!) e que não via há um bom tempo, está em Paris no momento em que escrevo essas mal traçadas. Tudo bem, estar em Paris é estar em Paris e eu fico aqui morrendo de inveja e desejando a ele e à Vilma, sua mulher, que encham os olhos e a boca de todos os prazeres possíveis - visuais, táteis, gustativos e olfativos - que encararem na capital francesa. E sabemos que não são poucos. Tenho umas mil fotos que tirei lá e vivo copiando outras da rede, enchendo o HD do micro de paisagens e pessoas deslumbrantes que ajudam um pouco a matar as saudades.

Só que Marcão não é mole não. Logo que chegou a Paris me mandou um e-mail avisando que estava por lá e, sabendo dos meus amores pela cidade, perguntou se eu queria alguma coisa. Disse para ele me enviar as passagens que eu faria todos os pedidos pessoalmente... Só que, junto com o e-mail, encasquetou de enviar uma porção de fotos. Depois enviou mais. Recebi mais de duzentas já. E não são fotos comuns, daquelas que a gente encontra fácil por aí, que qualquer turista faz. São fotos de lugares que não fazem parte do roteiro das agências de viagem, fotos do cotidiano francês, foto do turista tirando foto, foto do bailinho no meio da rua (que eles chamam lá de guiguettes), - todos dançando num domingo com uma temperatura beirando zero grau - foto da loja abrindo ou fechando, foto do mercadinho de frutos do mar, do antigo bar de jazz, das bikes todas esperando para serem alugadas etc. e tal. E, detalhe, resolveu botar legendas em todas elas, assumindo o costume que o trabalho de editor nas redações dos jornais lhe impregnou.

Fiquei horas curtindo as fotos enviadas através do Picasa com o qual, ele confessou, aprendeu a mexer agora, pela pura necessidade de enviar os instantâneos para os amigos. Elas me fizeram sentir que estava passeando em Paris em pleno inverno, coisa que nunca fiz. Senti o ar gelado batendo naquele espaço entre o pescoço e o queixo que insiste em ficar descoberto, senti os pés meio gelados (eu sofro com meus pés no frio - estive a dois graus abaixo de zero em Catamarca, na Argentina, perto dos Andes e toda hora me refugiava no ar quente da van para “recuperar” os pés, mesmo com dois pares de meias e um sapato forrado), as mãos resguardadas em luvas e o inevitável gorro protegendo a cabeça já com poucos cabelos e as orelhas. Zezé viu as fotos comigo e se encolheu na cadeira, sentindo também o ar gelado europeu que ela conhece tão bem, pois viveu um ano em Londres, mais fria que Paris, e não sente saudade do inverno de lá, só de Londres.... Mas iria para Paris no inverno, o que deixou claro na emoção que emanava a cada foto, a cada detalhe que descobríamos, a cada cena invadida por um tímido raio de sol que, conforme disse a Zezé, “é lindo, clareia, mas não esquenta nada”.

As últimas fotos que mandou - devem vir mais, pois faltam uns 20 dias para eles voltarem - devem ter sido feitas sob o efeito da nostalgia. Marcão tem a minha idade, um ano a mais ou a menos, é jornalista e, como eu, deve ter visto muitas revistas na juventude, cheias de fotos do mundo. A maioria dessas fotos era em branco e preto - eu me lembro das revistas Cruzeiro, Fatos e Fotos e Manchete que meu pai trazia. Sempre as devorava com suas grandes fotos que nos davam a idéia de como era o tal do mundo por aí - retratavam desde as guerras que, sem o colorido ficavam mais violentas ainda, até o mundo glamoroso dos ricos e chiques, dos artistas e esportistas, dos aventureiros e dos poderosos. Marcão deve ter sentido saudade da juventude e decidiu fotografar tudo em branco e preto e sépia, se aproveitando dos recursos que a tecnologia atual oferece. Curioso: a tecnologia de hoje nos ajuda a retratar como no passado. O resultado foi uma coleção de Paris “dos anos 40, 50, do século passado”, como se folheássemos as páginas de um exemplar da coleção de O Cruzeiro ou da americana Life, pródiga em fotógrafos que viviam ganhando prêmios por aí.

Ou seja, além de matar a saudade de Paris - pelo menos visual - através da lente do Marcão, ainda pude sentir um pouco do gostinho da adolescência, quando via fotos parecidas nos grandes magazines da época.

A consequência maior de tudo isso é que me deu - e na Zezé também - muito mais vontade de voltar a Paris. Vamos começar a economizar rapidinho. Acho que em dois ou três anos a gente consegue os euros (ou seja lá a moeda que for, do jeito que o mundo está nunca se sabe) para passar mais uma temporadinha em Paris.
Fotos: Marcão
Marcus Vinicius, um amigo jornalista com quem trabalhei no século passado (Mon Dieu ! Faz 30 anos!) e que não via há um bom tempo, está em Paris no momento em que escrevo essas mal traçadas. Tudo bem, estar em Paris é estar em Paris e eu fico aqui morrendo de inveja e desejando a ele e à Vilma, sua mulher, que encham os olhos e a boca de todos os prazeres possíveis - visuais, táteis, gustativos e olfativos - que encararem na capital francesa. E sabemos que não são poucos. Tenho umas mil fotos que tirei lá e vivo copiando outras da rede, enchendo o HD do micro de paisagens e pessoas deslumbrantes que ajudam um pouco a matar as saudades.

Só que Marcão não é mole não. Logo que chegou a Paris me mandou um e-mail avisando que estava por lá e, sabendo dos meus amores pela cidade, perguntou se eu queria alguma coisa. Disse para ele me enviar as passagens que eu faria todos os pedidos pessoalmente... Só que, junto com o e-mail, encasquetou de enviar uma porção de fotos. Depois enviou mais. Recebi mais de duzentas já. E não são fotos comuns, daquelas que a gente encontra fácil por aí, que qualquer turista faz. São fotos de lugares que não fazem parte do roteiro das agências de viagem, fotos do cotidiano francês, foto do turista tirando foto, foto do bailinho no meio da rua (que eles chamam lá de guiguettes), - todos dançando num domingo com uma temperatura beirando zero grau - foto da loja abrindo ou fechando, foto do mercadinho de frutos do mar, do antigo bar de jazz, das bikes todas esperando para serem alugadas etc. e tal. E, detalhe, resolveu botar legendas em todas elas, assumindo o costume que o trabalho de editor nas redações dos jornais lhe impregnou.

Fiquei horas curtindo as fotos enviadas através do Picasa com o qual, ele confessou, aprendeu a mexer agora, pela pura necessidade de enviar os instantâneos para os amigos. Elas me fizeram sentir que estava passeando em Paris em pleno inverno, coisa que nunca fiz. Senti o ar gelado batendo naquele espaço entre o pescoço e o queixo que insiste em ficar descoberto, senti os pés meio gelados (eu sofro com meus pés no frio - estive a dois graus abaixo de zero em Catamarca, na Argentina, perto dos Andes e toda hora me refugiava no ar quente da van para “recuperar” os pés, mesmo com dois pares de meias e um sapato forrado), as mãos resguardadas em luvas e o inevitável gorro protegendo a cabeça já com poucos cabelos e as orelhas. Zezé viu as fotos comigo e se encolheu na cadeira, sentindo também o ar gelado europeu que ela conhece tão bem, pois viveu um ano em Londres, mais fria que Paris, e não sente saudade do inverno de lá, só de Londres.... Mas iria para Paris no inverno, o que deixou claro na emoção que emanava a cada foto, a cada detalhe que descobríamos, a cada cena invadida por um tímido raio de sol que, conforme disse a Zezé, “é lindo, clareia, mas não esquenta nada”.

As últimas fotos que mandou - devem vir mais, pois faltam uns 20 dias para eles voltarem - devem ter sido feitas sob o efeito da nostalgia. Marcão tem a minha idade, um ano a mais ou a menos, é jornalista e, como eu, deve ter visto muitas revistas na juventude, cheias de fotos do mundo. A maioria dessas fotos era em branco e preto - eu me lembro das revistas Cruzeiro, Fatos e Fotos e Manchete que meu pai trazia. Sempre as devorava com suas grandes fotos que nos davam a idéia de como era o tal do mundo por aí - retratavam desde as guerras que, sem o colorido ficavam mais violentas ainda, até o mundo glamoroso dos ricos e chiques, dos artistas e esportistas, dos aventureiros e dos poderosos. Marcão deve ter sentido saudade da juventude e decidiu fotografar tudo em branco e preto e sépia, se aproveitando dos recursos que a tecnologia atual oferece. Curioso: a tecnologia de hoje nos ajuda a retratar como no passado. O resultado foi uma coleção de Paris “dos anos 40, 50, do século passado”, como se folheássemos as páginas de um exemplar da coleção de O Cruzeiro ou da americana Life, pródiga em fotógrafos que viviam ganhando prêmios por aí.

Ou seja, além de matar a saudade de Paris - pelo menos visual - através da lente do Marcão, ainda pude sentir um pouco do gostinho da adolescência, quando via fotos parecidas nos grandes magazines da época.

A consequência maior de tudo isso é que me deu - e na Zezé também - muito mais vontade de voltar a Paris. Vamos começar a economizar rapidinho. Acho que em dois ou três anos a gente consegue os euros (ou seja lá a moeda que for, do jeito que o mundo está nunca se sabe) para passar mais uma temporadinha em Paris.
Fotos: Marcão










