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31 de janeiro de 2012

A Paris do Marcão

Edmilson Siqueira

Marcus Vinicius, um amigo jornalista com quem trabalhei no século passado (Mon Dieu ! Faz 30 anos!) e que não via há um bom tempo, está em Paris no momento em que escrevo essas mal traçadas. Tudo bem, estar em Paris é estar em Paris e eu fico aqui morrendo de inveja e desejando a ele e à Vilma, sua mulher, que encham os olhos e a boca de todos os prazeres possíveis - visuais, táteis, gustativos e olfativos - que encararem na capital francesa. E sabemos que não são poucos. Tenho umas mil fotos que tirei lá e vivo copiando outras da rede, enchendo o HD do micro de paisagens e pessoas deslumbrantes que ajudam um pouco a matar as saudades.


Só que Marcão não é mole não. Logo que chegou a Paris me mandou um e-mail avisando que estava por lá e, sabendo dos meus amores pela cidade, perguntou se eu queria alguma coisa. Disse para ele me enviar as passagens que eu faria todos os pedidos pessoalmente... Só que, junto com o e-mail, encasquetou de enviar uma porção de fotos. Depois enviou mais. Recebi mais de duzentas já. E não são fotos comuns, daquelas que a gente encontra fácil por aí, que qualquer turista faz. São fotos de lugares que não fazem parte do roteiro das agências de viagem, fotos do cotidiano francês, foto do turista tirando foto, foto do bailinho no meio da rua (que eles chamam lá de guiguettes), - todos dançando num domingo com uma temperatura beirando zero grau - foto da loja abrindo ou fechando, foto do mercadinho de frutos do mar, do antigo bar de jazz, das bikes todas esperando para serem alugadas etc. e tal. E, detalhe, resolveu botar legendas em todas elas, assumindo o costume que o trabalho de editor nas redações dos jornais lhe impregnou.


Fiquei horas curtindo as fotos enviadas através do Picasa com o qual, ele confessou, aprendeu a mexer agora, pela pura necessidade de enviar os instantâneos para os amigos. Elas me fizeram sentir que estava passeando em Paris em pleno inverno, coisa que nunca fiz. Senti o ar gelado batendo naquele espaço entre o pescoço e o queixo que insiste em ficar descoberto, senti os pés meio gelados (eu sofro com meus pés no frio - estive a dois graus abaixo de zero em Catamarca, na Argentina, perto dos Andes e toda hora me refugiava no ar quente da van para “recuperar” os pés, mesmo com dois pares de meias e um sapato forrado), as mãos resguardadas em luvas e o inevitável gorro protegendo a cabeça já com poucos cabelos e as orelhas. Zezé viu as fotos comigo e se encolheu na cadeira, sentindo também o ar gelado europeu que ela conhece tão bem, pois viveu um ano em Londres, mais fria que Paris, e não sente saudade do inverno de lá, só de Londres.... Mas iria para Paris no inverno, o que deixou claro na emoção que emanava a cada foto, a cada detalhe que descobríamos, a cada cena invadida por um tímido raio de sol que, conforme disse a Zezé, “é lindo, clareia, mas não esquenta nada”.


As últimas fotos que mandou - devem vir mais, pois faltam uns 20 dias para eles voltarem - devem ter sido feitas sob o efeito da nostalgia. Marcão tem a minha idade, um ano a mais ou a menos, é jornalista e, como eu, deve ter visto muitas revistas na juventude, cheias de fotos do mundo. A maioria dessas fotos era em branco e preto - eu me lembro das revistas Cruzeiro, Fatos e Fotos e Manchete que meu pai trazia. Sempre as devorava com suas grandes fotos que nos davam a idéia de como era o tal do mundo por aí - retratavam desde as guerras que, sem o colorido ficavam mais violentas ainda, até o mundo glamoroso dos ricos e chiques, dos artistas e esportistas, dos aventureiros e dos poderosos. Marcão deve ter sentido saudade da juventude e decidiu fotografar tudo em branco e preto e sépia, se aproveitando dos recursos que a tecnologia atual oferece. Curioso: a tecnologia de hoje nos ajuda a retratar como no passado. O resultado foi uma coleção de Paris “dos anos 40, 50, do século passado”, como se folheássemos as páginas de um exemplar da coleção de O Cruzeiro ou da americana Life, pródiga em fotógrafos que viviam ganhando prêmios por aí.


Ou seja, além de matar a saudade de Paris - pelo menos visual - através da lente do Marcão, ainda pude sentir um pouco do gostinho da adolescência, quando via fotos parecidas nos grandes magazines da época.


A consequência maior de tudo isso é que me deu - e na Zezé também - muito mais vontade de voltar a Paris. Vamos começar a economizar rapidinho. Acho que em dois ou três anos a gente consegue os euros (ou seja lá a moeda que for, do jeito que o mundo está nunca se sabe) para passar mais uma temporadinha em Paris.

Fotos: Marcão

16 de janeiro de 2012

Seize

Edmilson Siqueira

Na crônica anterior que escrevi neste espaço gentilmente cedido, falei sobre meu gosto por jazz e a relação que faço dele com Paris. Mas só comecei a gostar de jazz já perto dos 30, quando, por coincidência ou não, tomei gosto pelo santo uísque de cada dia, hábito também deixado de lado quando me aproximei dos 60, mais por motivos de saúde que de gosto: às vezes mato a saudade com uma ou duas doses, no máximo, on the rocks, de um Black Label, meu preferido.

Antes de gostar do jazz e de uísque, a MPB havia feito uma revolução musical no Brasil, começando com a bossa-nova que me pegou no fim da infância, os festivais da Record e da Globo da minha juventude e o amadurecimento de grandes artistas entre meus os 20 e 30 anos. Tudo isso junto e misturado deu num gosto musical que privilegia a harmonia criativa, a melodia sensível, a letra (quando há) sincera e sem apelações e o improviso próprio de quem já andou na estrada das pautas ou dos instintos e descobriu seus próprios talentos e prazeres.


Hoje, se o gosto musical continua restritivo, a cerveja e o uísque foram, sem que tenham desaparecido totalmente, substituídos pelo vinho. E vinho francês, de preferência, sem recusar um bom português, um caprichado italiano, um forte chileno ou argentino. Há vinhos bons em muitos lugares e, tal como em relação ao jazz, não sou um expert. Conheço alguns vinhos que, sem desfalcar o bolso, cumprem bem a missão. Mas não me peçam para falar se tem aroma de menta, gosto de chocolate amargo, de frutas silvestres maduras misturadas com café torrado que caio fora. Vinho pra mim tem gosto de vinho. Uns podem ser – e são – diferentes de outros, mas são vinhos. Constato, pelo rótulo, o teor alcoólico (prefiro entre 11 e 12,5 por cento, sem recusar os mais fortes) e, não muitas vezes, o tipo de uva – conheço uns três ou quatro somente e acho que já tá bom. Sei da uva que é melhor na Argentina e no Chile e, por acaso mesmo, conheço alguns vinhos de Catamarca, na região noroeste da Argentina, que são ótimos, mas que só encontrei lá mesmo, jamais por aqui.

Mas tenho tomado mais franceses e, para surpresa de muitos, baratos e muito bons. Se alguém quiser levar em conta minha modesta opinião são o Cave de Ladac e Baron d'Arignac. Custam menos de R$ 25,00 (pelo menos no Pão de Açúcar onde compro a maioria), e não fazem feio.


Na França, nas duas vezes em que lá estive, provei pouco vinho. Um crime para um viajante esporádico como eu, mas fazer o quê? Fomos no verão e vinho gelado por lá só o rosé e, assim mesmo, meio resfriado apenas. Como tomei cerveja no primeiro dia, descobri que era ótima – muito melhor que a daqui – e tomei gosto. Quando tomei vinho – tinto ou rosé – o calor atrapalhou e voltei pra cerveja. Entre várias que tomei em Paris, uma ficou na lembrança e até citei na crônica passada: a 1664, mais conhecida como "Seize" (16 em francês), apelido que ela ganhou talvez por ser muito complicado falar 1664 em francês. Sim, o número no rótulo remete à data do início da fabricação da dita cuja. Quase com certeza por monges, que gostavam de uma loura caprichada sem medo do pecado.

Tomei várias delas num bar e restaurante perto do hotel, na Avenue du Maine, chamado L’Americain, por sugestão de um garçom que falava francês, inglês, espanhol e arranhava o alemão. E fiquei fã. Da cerveja, não do garçom. Quando voltei ao Brasil procurei a dita cuja, mas as exportações ainda não estavam tão fáceis como hoje. Tempos depois descobri uma prateleira cheia delas no Carrefour do Iguatemi em Campinas, e comprei três latas de meio litro cada. Quando acabaram – uma semana depois – voltei lá e não encontrei mais. Isso foi em 2006 ou 2007 e, depois, nunca mais, nem nos sites especializados ou nos bares cervejeiros que ostentam dezenas e até centenas de rótulos em seus cardápios.

Mas um dia ainda vou reencontrar a Seize. Aqui ou, preferencialmente, em Paris. E então degustarei com um prazer muito maior aquela que já foi considerada a melhor cerveja do mundo num desses concursos que se fazem lá pelas bandas europeias.

17 de novembro de 2011

Paris é jazz

Edmilson Siqueira

Eu gosto de jazz, não sou um expert no assunto, mas sei reconhecer a diferença entre um bom jazzista e um Kenny G, por exemplo. Paris deve ser considerada por muitos como a segunda terra do jazz. A primeira, claro, são os EUA, onde o dito cujo nasceu, rebento dos blues sulistas que vieram na garganta e na cabeça dos escravos africanos. Aqui no Brasil deu samba e chorinho, lá deu blues e jazz. Claro que não é tão simples assim, mas a raiz é a mesma mama África, terra do todos os ritmos e de todos os lamentos.

Uma das épocas de ouro de Paris, entre as duas grandes guerras mundiais do século passado, teve no jazz sua maior expressão musical. A música parisiense ou francesa, por um desses mistérios do universo, era tímida e regionalizada. Eram canções de amor, lentas e datadas, que abasteciam apenas o mercado interno e as cabeças mais presas ao próprio país. Claro que havia bons artistas, mas o francês universal, que nascia no ufanismo do progresso e na euforia da agitação cultural, tinha no jazz sua mais perfeita tradução musical. É curioso: o país, a capital principalmente, tinha grandes artistas da literatura, do teatro, das artes plásticas – pintura e escultura – mas não tinha um grande artista da terra fazendo o que poderia ser a música para a trilha sonora daquela efervescência. Era o jazz que vinha dos EUA que permeava as festas, que animava os bares, que era ouvido em todos os cantos onde qualquer tipo de vanguarda se manifestasse.

Piano, bateria e contrabaixo animando o Le Petit Journal Montparnasse... C'est ça, le jazz !

Essa fissura do francês moderno, ente 1914 e 1939, pelo jazz acabou atraindo os grandes nomes dos EUA para lá. E, depois de derrotado o nazismo, o jazz explodiu como um grito de liberdade pela noite parisiense, cravando uma influência que nem os amores franceses pela bossa nova, nas décadas de 1960/70 conseguiram superar.

Hoje é fácil descobrir o quanto foi gravado por lá com nomes que vão dos pioneiros Django Reinhardt a Louis Armstrong e Stan Getz. A grande Diane Krall gravou seu primeiro DVD em Paris, só para ficarmos num exemplo mais recente. E é fácil perceber também que Paris tem muitas casas noturnas dedicadas quase que exclusivamente ao jazz. Um passeio rápido pelo Google desvenda atrações para todos os gostos jazzísticos. Há jazz moderno, tradicional, quartetos, quintetos, trios, solistas, bandas que misturam jazz com outros ritmos – a chamada fusion inaugurada por Milles Davis, também um frequentador da noite parisiense, mas já na década de 1950 – e muito mais.

A capa de uma das diversas coletâneas que Chet Baker gravou em Paris.

Para se ter uma ideia mais precisa, num dos primeiros sites que apareceram na tela do micro – Jazz à Paris - havia essa programação em setembro, chamada, aliás, de petite sélecion: Festival Metis (Drillscan de Montreuil, 8 au 18 septembre); Julien Soro Big Four (Sunset, 8); Morgen Naughties (Tam de Villiers, Sylvaine Hélary, Karsten Hochapfel)(Kibele, 8 septembre)- Chris Corsano, Denis Tyfus … (Kobé, 9 septembre) ; - Une Fleur Dans le Chaos (59 Rivoli, 11 septembre); Arat Kilo & Mulatu Astatké (MAHJ, 11 septembre); Orchestre National de Dgiz, avec Fabien Rimbaud (Alimentation Générale, 14 septembre); Experience Sonique #9 (Combustibles, 15 septembre); Paris Jazz Club «Armstrong» (20 septembre, rue des Lombards); Médéric Collignon, Claude Parle, Fred Marty (Bab Ilo, 20 septembre); Anne Pacéo 5tet (Ermitage, 21 septembre); Spoumj (22 septembre, Olympic Café); Mesa of the lost women w. Cathy Heyden … (Instants Chavirés, 23 septembre); Leandre, Caron, Perraud (Triton, 23 septembre); Arat Kilo (Sunset, 24 septembre); Alain Pinsolle Chtarbmusic 4tet (La Java, 26 septembre); Leila Olivesi 5tet (Ermitage, 28 septembre); Matthieu Calleja, Sébastien Bouhana (Kobé , 28 septembre); Hasse Poulsen (Triton, 30 septembre). E nela não estava incluído o Festival de Jazz de La Villette, de 31 de agosto a 11 de setembro, uma tradicional atração do fim do verão parisiense.

Antigo cartaz com a programação do clube de jazz Le Petit Journal Montparnasse.

Enfim, pra mim Paris tem tudo a ver com o jazz e é essa música que sentia quando andava pelas suas praças e boulevards depois de um dia inteiro de passeios a lugares históricos e museus. Ou quando parava, fim de tarde, para uma cervejinha gelada, de preferência a Seize, apelido dado à ótima francesa 1664, que não encontro mais por aqui.

Mas, confesso, não fomos muito felizes quando procuramos jazz em Paris, em 2002. Na viagem do ano anterior, quase nem saímos à noite, pois chegávamos ao hotel no início da noite cansados de tanto andar pela cidade. Era banho, um jantar rápido, às vezes um passeio curto ali perto do hotel e cama. Balada nem pensar. Mas, na viagem seguinte, decidimos que íamos sair pelo menos uma ou duas noites para ver e ouvir jazz. Aliás, no primeiro dia, ao entrar na estação do Metrô, vi um cartaz de um festival de jazz (não me lembro se era o La Villette, que começava em 6 de setembro). Nossa viagem de volta era para 5 de setembro...

Um jazzman dita a trilha sonora do passeio sobre a ponte Saint-Louis (Foto: Thomas Errera, 2008).

Sem saber por onde começar, descobri num guia uma casa noturna perto do hotel em que estávamos. Era – é ainda – Le Petit Journal de Montparnasse, um nome que me atraiu talvez por ser jornalista. Li que era uma casa tradicional de jazz, por onde passaram grandes nomes desde a segunda guerra etc. e tal. Vimos no jornal do dia a atração da noite – um nome estranhíssimo por sinal, sem referências explícitas. Zezé ligou lá para fazer uma reserva. Perguntou, em inglês, se era jazz aquilo que estava programado. A resposta foi meio reticente do tipo “podemos dizer que sim”. Como quem atendeu falava pouco inglês, resolvemos arriscar. A casa é bonita (vi recentemente na internet e ela está ainda mais bonita), espaçosa, um palco meio íntimo como se deve quando o assunto é jazz. 30 euros por cabeça com direito a um couvertizinho de amendoim e uma jarrinha de vinho. Zezé pediu tinto e eu, como estava calor, fui de rosé. O meu acabou logo, antes de começar a música. Pedi outra jarrinha (18 euros) e quando estava enchendo a taça, a atração musical entrou no palco. Zezé e eu nos entreolhamos desconfiados. Duas mulheres vestidas com trajes típicos de algum país do norte ou do sul da Europa ou da Austrália, sei lá, e uns instrumentos estranhos que pareciam violão, violino, cavaquinho... Disseram alguma coisa numa língua tão estranha quanto as roupas e começaram a desfilar o repertório de... canções folclóricas de alguma região perdida nas estepes russas! Ouvimos umas três músicas, o tempo que durou a outra jarrinha de rosé, pedimos a conta (85 euros) e fomos embora dando risada do mico.

Dia seguinte, conferimos a atração da noite no jornal: piano, bateria e contrabaixo e um “jazz ensemble” no nome que não deixava dúvidas. Mas assim mesmo ligamos para confirmar. Por volta das dez horas começou a tocar um trio jazzístico da melhor qualidade, que nos preencheu a noite e nos fez esquecer a “balada” furada da noite anterior. A volta pra o hotel, na noite fresca de fim de agosto, ali pelas duas da manhã, foi a pé mesmo, por ruas semidesertas, tranquilas e, principalmente, seguras.

31 de agosto de 2011

Impressões impressionistas

Edmilson Siqueira

O bom de estar em Paris, além de tudo que a cidade oferece, é que em pouco menos de uma hora você pode estar em Giverny, onde Monet criou um jardim que parece uma grande pintura e depois o colocou em quadros que ficaram ainda mais bonitos que o jardim. Aquela impressão nublada que aquele mundo de folhas, flores, céus e sóis nos dá em suas obras é o sonho do jardim que você vê ao vivo. Estar ali, passeando e admirando a “outra obra” do artista, é como penetrar num quadro dele para se deliciar naquele turbilhão de impressões e cores.

Estivemos lá, Zezé e eu, em 2002. Na margem esquerda do Sena (ou era direita? Eu sempre confundo, pois sinceramente não sei qual é uma ou outra) havia uma pequena agência de turismo que fazia (deve fazer ainda) várias excursões diárias até Giverny. Você podia ir até a agência e pegar uma van ou contatá-la desde o hotel, que ela ia lhe buscar. Era mais barato ir até lá, claro. E um passeio naquela região, margeando o rio, cheia de artistas nas calçadas valia muito mais que esperar a van no hotel.

Em cerca de uma hora estávamos em Giverny. Um lugar afastado, sem muitas casas, muita natureza domesticada, calmo e silencioso. A van nos deixou em frente à casa, de onde ainda não se vislumbra o jardim. O motorista, um jovem com menos de 25 anos, avisou todo mundo - em francês e inglês - que às 17h estaria de volta. Tínhamos umas quatro horas para ficar ali. E foi pouco.

Compramos os ingressos e entramos, passando direto para o jardim onde o encanto daquelas paisagens nos esperava. Um riacho serpenteia todo o jardim e, para ultrapassá-lo, há aquela famosa ponte japonesa que qualquer admirador de Monet já viu em seus quadros.

Andamos, sentamos num banco, comemos um sanduíche, andamos de novo, voltamos por onde entramos, começamos o trajeto de novo e, houvesse tempo de sobra, faríamos novamente o mesmo percurso, pois sempre descobríamos algo novo, uma árvore que passou sem que víssemos, uma folhagem já amarelada, um raio de sol em outra posição causando novas sombras e novas luzes, enfim, estávamos assistindo, 76 anos depois de sua morte, à produção de vários novos quadros de Monet a todo instante. Acho que disse pra Zezé que foi pra isso, mais do que para as obras que produziu ali em vida, que Monet criou aquele jardim: para imortalizar suas impressões todas, de forma dinâmica e inusitada, pois cada visitante, ao entrar e andar pelo jardim, pode imaginar o que o gênio de Giverny estaria fazendo agora, como ele estaria transformando as novas folhas e flores e sóis e sombras em espetáculos visuais encantadores.

Monet viveu naquela casa - que hoje é seu museu - e naquele jardim por 43 anos, até morrer em 1926. Para construir o jardim comprou o terreno ao lado da casa e contratou seis jardineiros. Já eram dias de fartura, seu trabalho já era admirado reconhecido depois de muita pobreza e sofrimento.

Na casa-museu estão vários quadros seus - cópias perfeitas já que os originais estão em museus famosos e muito mais seguros. Há um bazar onde estão posters de quadros de vários tamanhos e preços e muitas outras lembranças.

A volta foi em silêncio. Por certo todos na van - havia três casais se bem me lembro - estavam a digerir aquele mundo de beleza impressionante e, principalmente, impressionista. Os outros casais ficaram em seus hotéis e Zezé e eu prosseguimos até a sede da agência. Um bom papo com o motorista, sua preocupação com o aumento de imigrantes em Paris e os efeitos dessa imigração na política (efeitos que se consumaram, diga-se, e ajudaram a afastar partidos de centro-esquerda do poder), marcou o retorno. Ficamos por ali, passeando às margens do Sena, até que uma chuva fina caiu e resolvemos sentar num café com cadeiras na calçada, ao abrigo da chuva.
Uma taça de vinho, uma tarde caindo, uma chuvinha fina, Paris à sua volta e as impressões de Monet rondando seu cérebro. Isso deve ser algo muito próximo ao paraíso.

17 de agosto de 2011

Aos 60 do segundo tempo

Edmilson Siqueira

Fiz 60 anos domingo passado e, se os deuses do Olimpo tivessem me ouvido, tê-los-ia comemorado em Paris. Não, não seria uma comemoração em Paris com toda a pompa que o nome sugere. Seria um dia como outro qualquer que mereceria um vinho talvez um pouco mais caro num café do Quartier Latin ou de uma colina de Montmartre, adivinhando os espíritos sombrios que por ali já passaram e que, por certo, estariam rondando minha mesa. Minha não, nossa. Zezé estaria ali, com certeza. E talvez um ou outro amigo que tivesse feito por lá. Não sou de fazer amigos, talvez a idade tenha me tornado meio ranzinza e acabo muitas vezes perdendo a paciência.

Ah, a falta de pompa também se daria porque eu não teria ido para lá só por causa da data. Eu já estaria lá e “comemorar em Paris” seria apenas uma consequência da mistura do fato geográfico com o calendário gregoriano que vivemos.

Eu teria ido a Paris um ou dois anos antes, satisfeito porque finalmente as finanças teriam permitido o sonho se realizar. Teria alugado um apartamento em qualquer margem do Sena, mesmo longe do Sena, com vista para qualquer coisa, pois qualquer coisa seria Paris, mesmo que fosse o prédio em frente.

Já falaria francês fluentemente, pois teria frequentado aulas como um colegial aplicado e, sempre que possível, puxaria uma conversa com alguém só para saber o que já conseguia entender. Porque uma coisa é a professora lhe falar pausadamente para que você entenda a lição do dia. Outra é a voz das ruas, do cidadão comum que não está nem aí com o fato de você ser estrangeiro. Assim, fazendo de toda Paris um enorme livro da língua de Victor Hugo e de cada conversa uma pequena aula, eu já manjaria até uma porção de gírias. A prova de fogo teria sido em algum jardim de Paris, onde senhores aposentados passam o tempo jogando pétanque, aquele jogo que se parece com a bocha. Parece, não, é o mesmo, talvez só mudando o tamanho e o local dos campos. Sentar ali, apreciar o jogo e entender tudo o que eles falam, seria a prova final do meu curso.

Em domingos de sol - primavera ou verão, não importa - aprontaríamos uma sacolinha com uma toalha, alguns queijos, uma saladinha num tapeware, umas frutas e uma garrafa de vinho branco que saberíamos manter gelado, e iríamos ao Parc Floral curtir um show qualquer no seu auditório ao ar livre. O gramado abrigaria a toalha e nossos corpos sentados, ouvindo uma boa música, comendo um bom queijo e bebendo um bom vinho. Na saída não haveríamos de nos preocupar com o carro parado lá fora. Ele estava seguro sem a necessidade de “guardadores” que exigem pagamento adiantado para não guardar nada. Isso se tivéssemos carro, porque o Metrô nos levaria até a poucos metros do parque e, na volta, nos deixaria “pertindicasa”, com diz um amigo mineiro.

Na volta, poderíamos escolher um cinema, um teatro, um casa de jazz ou fazer um passeio a pé mesmo, que cada esquina tem um cartão postal pronto para ser admirado.

Meus 60 anos foram comemorados sábado passado, com alguns familiares e amigos e amigas no meu apartamento em Campinas. Foi uma noite alegre em que tive a sensação de estar entrando de vez para o rol dos “idosos” quando minha filha me perguntou: “Ô pai, agora você pode estacionar naquelas vagas maneiras do shopping?” Pois é, fiz meu cadastro na prefeitura e logo mais terei o cartão de idoso que me dá o privilégio. Não, não é Paris e não há um jardim para se jogar pétanque em segurança por aqui, mas já é alguma coisa.

11 de agosto de 2011

Uma declaração de amor a Paris

Quando li a primeira crítica do filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, percebi que estava diante de algo que, mesmo que não fosse a obra-prima que é, teria de assistir. A história me pegou logo de cara, mas não pelo fato de o personagem principal viajar no tempo e encontrar ícones de uma era com os quais eu convivi em dois livros recentes - Paris Não Tem Fim, de Henrique Vila-Matas e Os Exilados de Montparnasse, de Jean Paul Caracalla, - e que eram seus ídolos ou, mesmo que não fossem, eram artistas geniais – e sim pelo fato de que ele está em Paris e, apesar de ser americano, estar de casamento marcado com a filha de um milionário americano, pensa em, de alguma forma, ficar por ali, casar nos EUA, sim, mas morar em Paris para se inspirar e poder escrever romances. A noiva nem imagina em morar em Paris. Prefere Malibu ou algo parecido.

A história me lembrou um amigo que viveu em Paris alguns anos e relutou em voltar e que, como o herói de Woody Allen, também escreve e gostaria de alçar vôos mais altos. Mas a vida às vezes não nos deixa escolhas ou, talvez melhor, adia essas escolhas por um tempo.

A crítica do filme continuou me contagiando e quando acabei de ler fui pesquisar a programação dos cinemas de Campinas. Domingão à tarde era o melhor horário pra mim. Eu disse “que futebol, que nada” e me mandei para o cinema. Zezé, minha mulher, cansada após um sábado exaustivo, decidiu não ir.

Para minha surpresa, o cinema lotou, o que não é comum em se tratando de Woody Allen. Antes de começar o filme, lancei uns olhares pela platéia e, outra surpresa, constatei que ela se dividia em várias idades - jovens, adultos e outros como eu, já passados dos cinquenta. Veja só, pensei, um filme de Woody Allen atraindo gerações.

O início do filme, com uns 5 minutos de paisagens parisienses sob um tema de jazz delicioso (Woody Allen tocava ou toca clarinete num grupo de jazz) como se fosse um comercial da cidade é de emocionar qualquer um, mas principalmente quem vê Paris como eu. Explico: estive lá duas vezes, dez dias cada vez, em 2001 e 2002. Penso em voltar, quero voltar e, tenho certeza, vou voltar. Desde 2001, sonho em viver lá, andar por lá, ver tudo de novo e ver também tudo que ainda me é novo. Enfrentar o frio que eu não gosto com, no mínimo, pinta de quem está aguentando firme e, finalmente, aprender francês de vez, eu que apenas balbucio algumas frases feitas tiradas de alguns sucessos musicais dos anos 60 e 70 e outras das aulas da Maria Bon Jour no Colégio Estadual Culto à Ciência de Campinas.

A partir desse início, para mim arrasador, fiquei me deliciando com o resto do filme. Adorei cada momento, curti cada paisagem que via ou revia, ri a cada piada e situação, adivinhei o nome de quase todos os artistas do início dos anos 20 do século passado que aparecem, sofri um pouco para lembrar que o que ele sugere a Buñel acabou virando O Anjo Exterminador e me deliciei com os rinocerontes ainda virtuais de Salvador Dalí, eu que vi um deles - e até fotografei - quando uma exposição do surrealista espanhol veio para Campinas e expôs a enorme escultura na rua, em frente ao museu. Segurei um nó na garganta várias vezes - e o filme não tinha um momento sequer que sugerisse lágrimas. Era a saudade de Paris que aflorava vez em quando misturada à impossibilidade de sair do cinema e pegar um avião da Air France em Cumbica (nem precisava reencontrar a linda aeromoça que me disse “je vous écoute” na primeira viagem) e descer no Charles De Gaulle no outro dia de manhã.

No domingo seguinte, Zezé disse que queria ver o filme. Fui com ela.

Edmilson Siqueira