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28 de fevereiro de 2012

Allée da rue Oudinot

Não Joãozinho, eu não exagero quando digo que Paris nos reserva surpresas verdadeiramente impressionantes - basta que estejamos dispostos a conhecer a cidade com espírito leve e olhos atentos.

Você simplesmente está lá, flanando despreocupado por um canto qualquer da cidade. Você se detém por um momento e olha em volta. E então você percebe que aquela estreita e bucólica ruazinha está distante dos monumentos suntuosos. Nela não há nada que lembre bulevares de perspectivas infartantes ou pontos turísticos disputados. Nada de edifícios imprestavelmente lindos ou algo que pudesse motivar alguém a dar um olho ou a querer trocar cinco minutos de vida só para estar ali. E é então que, de repente, uma lance qualquer que num primeiro momento parecia tão carente de importância se revela - e aquela cena, lugar ou momento, se transforma diante de seus olhos maravilhados, tornando-se a sua dica secreta; aquele pedacinho mágico de Paris que será para sempre só seu.
A porta do edifício de número 23 é na verdade a entrada para a bela Allée Oudinot.

Ainda não faz muito tempo que minha amiga Bárbara Marques - a Babi - mudou-se para Paris. E não tardou muito para que ela começasse a ter suas próprias revelações parisienses. Uma dessas descobertas é a bela Allée da rue Oudinot - uma grande alameda arborizada que se esconde por trás da porta maciça que protege a entrada do edifício de número 23. Quem passa apressado pela rua Oudinot sequer imagina que possa existir uma vila campestre bem atrás da austeridade da fachada daquele edifício parisiense.
Surpresas parisienses: o refúgio escondido atrás da porta.

Pelas palavras da Babi, "a Allée Oudinot é uma vila que fica escondida dentro de um prédio. Estranho, né? Também achei quando a vi pela primeira vez, mas depois me apaixonei pelo lugar. O acesso é pela entrada do edifício de número 23 da rue Oudinot - próximo ao metrô Duroc. Quando você entra pela porta se depara com várias casinhas que abrigam ateliers de arte e uma escola infantil que oferece aulas de francês aos sábados. Essa área deve abrigar aproximadamente umas 16 casas, todas lindas! E nos dá vontade de ficar um pouco mais por ali."
Vista dos ateliers da Allée Oudinot.

Ainda dá tempo de encaixar uma curiosidade nesse post? Pois então anote esta para fazer bonito quando estiver passeando por ali com sua namorada, Joãozinho: a estação de metrô Duroc, próxima a rue Oudinot, tem esse nome em homenagem a Gérard Christophe Michel Duroc, o duque de Frioul (1772-1813). Duroc foi um importante general do império de Napoleão Bonaparte, tendo se destacado nas campanhas na Itália e Egito. Sua morada atual é o Hôtel des Invalides, onde repousa próximo ao Imperador.

Allée Oudinot
23 rue Oudinot
Metrô: Duroc linhas 10 e 13

Com a colaboração de Bárbara Marques

1 de novembro de 2011

A muralha de Philippe Auguste

Uma das coisas que mais me fascinam na França é o cuidado com o qual o país preserva sua história.

Ainda hoje quem visita Paris pode ver sem muito esforço construções históricas tão antigas quanto impressionantes. E um desses vestígios históricos que considero mais marcantes na cidade é muralha de Philippe Auguste - a mais antiga muralha de traçado completo de Paris.

A construção dessa grande muralha foi empenhada pelo rei Philippe Auguste entre os anos 1190 e 1215 para proteger a cidade durante sua ausência enquanto ele lutava na terceira cruzada. A construção foi na verdade a integração de outras muralhas menores já existentes, sendo que a margem direita do Sena foi fortificada entre 1190 e 1209 e a margem esquerda do rio de 1200 a 1215. A fortificação foi erguida antes na margem direita devido a maior probabilidade de um ataque acontecer por esse flanco. Além disso, à época a margem esquerda era a região menos urbanizada da cidade e, portanto, considerada como menos prioritária.

Fantástico é isso aqui, ó: o edifício estreitinho que fica no 7 bis do boulevard Saint-Germain foi construído na própria estrutura da grande muralha parisiense.

Nos subterrâneos do museu do Louvre pode ser vista a fundação da fortaleza do Louvre, a obra que, em conjunto com a muralha, completava a fortificação da cidade.

Nem só de comércio vive a rue de Rivoli, tia Eulália! Nessa importante rua de Paris, vestígios da torre de Philippe Auguste que integrava a fortificação.

Museu a céu aberto: este trecho da muralha fica na rue Clovis.

E é por essas e outras boas surpresas que Paris nos reserva durante uma simples caminhada que digo que não é preciso de muita coisa para aproveitar bem um passeio pela cidade. Basta estar bem guarnecido de um bom par de tênis e de olhos atentos. O restante a cidade se encarrega de fazer por nós.

Foto menor: na reprodução de um mapa a cidade de Paris datado de 1223 é possível ver todo o traçado da muralha de Philippe Auguste.

16 de agosto de 2011

Distribuidor automático de pães no XIXème

Uma idéia simples e criativa implementada em Paris está fazendo o maior sucesso entre os moradores das imediações do Parc des Buttes-Chaumont - trata-se do primeiro distribuidor automático de pães da cidade.

A máquina que fica diante de uma simples boulangerie de bairro localizada na avenue Mathurin-Moreau vende diariamente baguettes quentinhas a qualquer hora do dia ou da noite. Basta você botar uma moedinha de 1,00€ na máquina et voilà la baguette.

A máquina funciona mais ou menos assim: aproximadamente 100 baguettes pré-assadas são colocadas em um compartimento refrigerado da máquina onde os pães podem se manter em perfeitas condições por até 72 horas. Pouco a pouco os pães são transferidos automaticamente a um forno integrado ao aparelho, onde são assados no ponto certo para que cheguem quentinhos e crocantes às mãos do freguês. Quando as baguettes assadas estão acabando, a própria máquina se encarrega de transferir novos pães da geladeira para ao forno, iniciando mais uma fornada.

Olha que prático Joãozinho: moedinha de um lado, pão quentinho do outro.

Graças à novidade, o boulanger Jean-Louis Hecht (que aparece orgulhoso na foto menor ao lado de sua criação) aumentou as vendas da baguette em 80 unidades diárias.

Sede do Partido Comunista Francês: Niemeyer a dois passos da boulangerie.

Ah Joãozinho, aproveite que está na rua e mesmo que não tenha pretensões políticas, dê uma espiada na sede do Partido Comunista Francês que fica logo ali pertinho na place du Colonel Fabien. Construído em 1971, o edifício é a materialização de um projeto de 1965 do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer e é catalogado como monumento histórico francês. Se conseguir ingressar no edifício, vale saber que o teto oferece uma vista fantástica de Paris.

Bolangerie Mathurin
20 avenue Mathurin-Moreau
Metrô: Colonel Fabien linha 2

Siège du Parti Communiste Français
2 place du Colonel Fabien
Metrô: Colonel Fabien linha 2

12 de agosto de 2011

Declarada a guerra dos Post-It

A Guerre des Post-It é a mais nova - e curiosa - mania que está tomando conta dos escritórios corporativos instalados na região parisiense.

Trata-se de um divertido desafio que consiste em montar um mosaico feito de Post-It na janela do escritório, convidando assim o pessoal que trabalha no edifício em frente a entrar na brincadeira e montar um mosaico ainda mais bacana.

Os temas preferidos dos parisienses são relacionados aos jogos clássicos de video games como Pac Man, Space Invaders, Super Mario Bros e Sonic, mas personagens de desenhos animados como Os Simpsons, Bob Esponja e Angry Birds também são vistos de forma recorrente adornando as janelas dos escritórios de La Défense.

Vamos combinar: isso é muito mais divertido do que a pausa do cafezinho.

É indiscutível o talento dos profissionais desta empresa de La Défense.

A "guerra" entre os funcionários da desenvolvedora de jogos Ubisoft e os do banco BNP que ficam instaladas face a face na região parisiense de Montreuil é uma das mais divertidas e comentadas, tamanha a adesão de participantes - e de Post-Its.

Você pode ver mais fotos dessa criativa forma de declarar guerra aos vizinhos acessando o site Post-it War.com

2 de julho de 2011

Paris, je t'aime: Quartier de la Madeleine

O Delano Silveira, leitor assíduo do Viver Paris, me enviou um e-mail com uma pergunta supimpa. Como a resposta serve como sugestão de passeio para os fãs do filme Paris, je t'aime achei bacana publicar um post aqui no blog e compartilhar a informação com vocês. Ele queria saber onde fica a locação do curta-metragem Quartier de la Madeleine - um dos 18 curtas que compõem Paris, je t'aime.

Para quem não se lembra, essa parte do filme é escrita e dirigida por Vincenzo Natali e retrata a 'paixão a primeira mordida' de um rapaz (interpretado por Elijah Wood) por uma bela vampira (Olga Kurylenko) que assombra o quartier. Propositalmente kitsch, Quartier de la Madeleine é o único curta do gênero fantástico em todo o filme.

Construída no século XIX, esta ponte faz uma importante participação em 'Quartier de la Madeleine' (Foto: Gérard Métron).

Famoso por abrigar algumas embaixadas e ministérios importantes, o quartier de la Madeleine fica no 8° arrondissement. Como o próprio nome sugere, está situado nas proximidades da igreja de la Madeleine que dá nome ao quartier. Administrativamente, é conhecido como 31e quartier parisien.

Não menos importante para a história é a escadaria integrada a ponte (Foto: Gérard Métron).

A escadaria e a ponte de aço que aparecem no filme - e onde se desenrola praticamente toda a trama da história - foram construídas em 1868 pela companhia Ernest Gouin & Cie e ficam na junção da rue du Rocher com a rue Portalis.

E aqui uma imagem da escadaria como aparece no filme. Cuidado Frodo!

Curiosamente - e isso pode ser facilmente percebido por quem caminha pelas ruas do quartier - esse exato lugar tem características um tanto atípicas para a região, parecendo meio fora do contexto arquitetônico do restante do arrondissement.

Situado no boulevar Malesherbes, o Hôtel de Cail tem a arquitetura típica dos imóveis do 8° arrondissement.

Para quem quiser dar uma passadinha por lá, segue abaixo o link para o mapa e a indicação do metrô mais próximo. Só tome cuidado para não se engraçar com a vampira alheia, viu Joãozinho?

Mapa: Quartier de la Madeleine (rue du Rocher x rue Portalis)
Metrô: Europe linha 3

Para assistir Quartier de la Madeleine no Dailymotion, clique aqui.

22 de setembro de 2010

Metrô Abbesses

Quem me conhece sabe que sou um entusiasta do metrô de Paris. Uma das estações que mais me atraem na cidade é Abbesses, da linha 12 do metrô. E se você acha que estação de metrô ‘é tudo igual’, vou te contar por que acho que estações como Abbesses estão longe de ser apenas mais uma entre as outras.

Para começar Abbeses é a mais profunda de todas as estações de metrô da cidade. Suas plataformas estão firmemente plantadas a 36 metros abaixo do nível da rua. Devido a profundidade, as escadas de acesso às plataformas precisaram ser projetadas em forma de espiral para que a inclinação não fosse muito acentuada. Além da escada ‘escargot’, a estação também tem elevadores que interligam a bilheteria às suas plataformas.

A estação Abbesses foi inaugurada em 31 de outubro de 1912, mas vale mencionar que a bela edícula Guimard que ornamenta sua entrada foi permanentemente emprestada da estação Hôtel de Ville em 1974. Nem sempre a estação Abbesses foi operada pela RATP; em sua tenra idade ela fazia parte da malha da antiga Societé Nord-Sud que, diga-se de passagem, sempre foi contrária à instalação de edículas Guimard em suas estações. Curiosamente, hoje é impossível de imaginar Abbesses sem a sua edícula.

A bela edícula Guimard que enfeita o acesso a Abbesses (foto: Steve Cadman, 2007)

Apesar de não gostarem das edículas Guimard, para uma coisa eu tiro o chapéu para os engenheiros e arquitetos da Societé Nord-Sud: suas estações eram muito bem construídas. Caracterizavam-se, sobretudo, pelas plataformas amplas, bem elaboradas e com detalhes caprichados: os nomes das estações eram escritos com belos mosaicos em cerâmica, as paredes eram enfeitadas com afrescos típicos da companhia e o topo dos arcos dos túneis sempre indicavam a direção dos trens.

Assim é a área da bilheteria em Abbesses (foto: Pline, 2007).

Ao longo dos anos 50 diversas estações do metrô parisiense passaram por obras de renovação. Nessa ocasião Abbeses recebeu colunas de suspensão na forma de placas metálicas decorativas. Outro grande trabalho de restauração aconteceu entre 2006 e 2007 - dessa vez para devolver a Abbesses o estilo original de suas plataformas, aquele jeitão de estação da Nord-Sud.

Aqui uma vista das plataformas (foto: Ben Leto, 2008).

Além de bem projetada, Abbesses é também muito charmosa. Já virou cartoon no clip da canção Flowers de Émilie Simon, já foi homenageada com a música Abbesses da banda francesa Birdy Nem Nem e, se você puxar pela memória, vai se lembrar de que Abbesses é a estação do metrô da Amélie Poulain no filme Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain. Ah, e até pouco antes de sua conclusão, o filme tinha como título provisório Amélie des Abbesses. Até de inspiração para uma bolsa da Louis Vuitton, Abbesses já serviu.

E aqui uma rara imagem dos afrescos originais de Abbesses que se perderam ao longo de sucessivas reformas (Foto de Gérard Laurent para o site Paris Cool).

Abbesses tem um único acesso, localizado na Place des Abbesses, diante da casa de número 2 da rue de la Vieuville. Seu nome vem da própria Place des Abbesses, que faz referência à Abadia das Damas de Montmartre (Abbaye des Dames de Montmartre).

A estação é muito utilizada por turistas em suas visitas a Sacré-Coeur, a Place du Tertre, a igreja Saint-Jean-de-Montmartre... E também por outros usuários que, assim como eu, sentem-se mais vivos apenas por caminhar a esmo pelas ruazinhas que ficam ao redor da estação, tendo como única e nobre intenção massagear Paris nas costas enquanto caminham.

E então, Joãozinho? Ainda acha que estação de metrô ‘é tudo igual’?

Ilustração: Detalhe de ornamento da estacao Abbesses, by Paris in Color.

8 de março de 2010

Um jeito divertido e inusitado de conhecer Paris

E que tal passear pelas ruas de Paris cantando? O quê? A voz não ajuda? Deixa disso Joãozinho... Então cantarole mentalmente - ou apenas com o coração. Mas indepentente de seus dotes musicais, vale a pena conhecer um pouquinho da Paris dos tempos de Piaf, Brel, Dalida, Barbara, Brassens... E é justamente essa a bonita proposta de promenade idealizada pelo monsieur Perciot.

Jacques Perciot é um guia turístico fora do convencional: originário de Beaujolais e estabelecido em Paris desde 1985 ele promove passeios temáticos pela Paris imortalizada nos clássicos dos grandes intérpretes da chanson française. Além de guia, ele também é jornalista, escritor, produtor musical e (ufa!) foi animador da Radio France por mais de 20 anos - entendeu agora por quê ele sabe tanto da influência de Paris na música francesa?

Place Dalida: localizada em um dos meus pontos preferidos de Montmartre, também está no roteiro. Foto: Paul Gueu.

Ao longo do passeio, Perciot dá uma verdadeira aula sobre a vida dos intérpretes e a história das canções que fazem menção aos lugares visitados. Um passeio que nos convida a ver com outros olhos a Belleville de “La môme” Piaf, o 14ème e 15ème arrondissements de Georges Brassens, a Montmartre e a Rive Gauche que inspiraram tantos outros.

Impasse Florimont: no coração do 14ème arrondissement, foi o refúgio de sossego do genial Georges Brassens durante 22 anos.

Para participar dos passeios você deve antes fazer sua reserva por e-mail: jacques.perciot@wanadoo.fr ou então pelo telefone 06 2051 9389. A taxa de participação é de 12,00 euros por pessoa e pode ser paga no dia do passeio diretamente ao guia.

Ah, um detalhe: os passeios têm duração de 2 horas e meia a 3 horas. Portanto, não se esqueça de calçar seus tênis mais confortáveis se quiser acompanhar as histórias de monsieur Perciot sem precisar fazer uma pausa para aplicar o seu Compeed.

Vista da Place Edith Piaf no 20ème arrondissement.

Além dos passeios, Jacques Perciot também se apresenta em conferências musicais e em animados aperitivos regados a canções de humor - são os apéros-causeries.

O site de monsieur Perciot é tão simples quanto eficiente. O calendário dos passeios e eventos de março já está publicado lá, completinho para você conferir: Balades Paris Chanson.

Foto menor: Jacques Perciot falando sobre música - bien sûr.

17 de janeiro de 2010

Placas, padrões e divagações

Verdadeiros símbolos de Paris (e também por isso escolhidas como logo do Viver Paris, bien sûr), as placas usadas atualmente para indicar os nomes das ruas da cidade seguem o mesmo padrão desde 1847 - sendo um dos mais antigos modelos ainda em uso no mundo.

O padrão das placas exige que elas tenham entre 70cm e 1m de largura, entre 35cm e 50cm de altura, que estejam posicionadas de 2m a 2,5m de altura em relação ao solo e que indiquem também o arrodissement. As cores também obedecem uma regra: letras brancas, fundo azul de ftalocianino de cobre, enquadramento verde de oxido de cromo e relevos com efeitos de sombra em branco e preto.

Como manda o figurino: assim é a placa da rue Servandoni.

Mas apesar desse padrão tão antigo quanto bem estabelecido, a cidade se dá ao direito de preservar algumas pequenas e curiosas "transgressões", como a da rue Jacob (6ème) que tem uma plaquinha minúscula sob a placa em tamanho padrão ou a rue Agar (16ème), que tem uma placa toda estilizada em art nouveau. A rue de Castellane (8ème) tem a placa feita em mozaico de porcelana e a avenue de Tourville (7ème) ostenta uma placa ornamentada por uma bela moldura haussmannienne.

Para adultos e crianças: a curiosa plaquinha da rue Jacob.

Que nem eu, só tem eu: a estilosa placa da rue Agar (foto de Henry Salomé)

Alardeada de anjos: a suntuosa plaquinha da avenue de Tourville.

Outro detalhe que gosto de observar em Paris é que ainda hoje também podemos ver tanto as antigas plaquinhas quadradas feitas em porcelana quanto as gravações (ainda mais antigas) feitas em pedra nos próprios edifícios (foto menor). E são justamente essas gravações preservadas que nos permitem descobrir, por conta própria, algumas curiosidades sobre as ruas de Paris como, por exemplo, que a rue Elzévir (3ème) um dia se chamou rue des Trois Pavillons, ou ainda que o nome da rue de Buci (6ème) antigamente era grafado rue de Bussy.


A primeira vez que me dei conta desses detalhes foi durante um passeio pela Île Saint-Louis e imediações dos metrôs Saint-Paul (linha 1) e Pont Marie (linha 7). Depois disso, sempre que caminho pelas ruas da cidade, gosto de dedicar um pouquinho da minha atenção às placas das ruas. Ao meu modo, acho que essas placas - sobretudo as que fogem à regra - revelam, de maneira sutil, um pouquinho da beleza de Paris, nos mostrando que o conceito de beleza pode sim, estar acima de qualquer padrão.

28 de novembro de 2009

Place du Châtelet

Seja turista ou parisiense nato, qualquer pessoa que se aventure pelas ruas de Paris acaba hora ou outra passando pela Place du Châtelet.

Lugar incontornável graças à sua localização central privilegiada, é na Place du Châtelet onde se cruzam os eixos viários norte-sul e leste-oeste de Paris, representando para a cidade quase que a própria definição do termo “ponto de encontro”.

Mas além das ruas, a Place du Châtelet também conecta pessoas, através das diversas linhas do metrô que são interligadas em seus subterrâneos, dos tradicionais cafés parisienses que ornamentam o seu entorno e do majestoso Theatre du Châtelet - uma das mais respeitadas casas de espetáculos de Paris. E como se ainda precisasse de um toque a mais de charme, tudo isso fica às margens do Sena, na entrada da Pont au Change.

Vista noturna por sobre as caixas dos bouquinistes: à direita a Place du Châtelet, à esquerda a Pont au Change iluminada sobre o Sena. Extrato de foto panorâmica de Arnaud Fisch de 2003.

Mas apesar de tanta gente que passa diariamente por ali, do parisiense que caminha apressado de sanduiche na mão ao turista que pulsa de contentamento por estar fluindo pelo coração da cidade, são poucos os que conhecem a história dessa praça e o significado de seu nome. Ficou curioso Joãozinho? Calma, o Viver Paris conta um pouquinho dessa história pra você...

Belas babonas: as esfinges que guardam a Fontaine du Palmier - criada para exaltar as glórias napoleônicas - fazem alusão às campanhas de Bonaparte no Egito e ornamentam a Place du Châtelet.

A Place do Châtelet fica no exato ponto onde antigamente (e bota antigamente nisso) havia o Grand Châtelet - uma fortificação construída para guardar a entrada da Pont au Change, e que foi completamente destruída em 1808, durante o império napoleônico. Na verdade existiam duas fotificações: o Petit Châtelet, que protegia o acesso ao Petit Pont, e o Grand Châtelet. Naquela época a Pont au Change ainda se chamava Grand Pont, mas apesar de ficarem no mesmo lugar, a ponte que conhecemos hoje foi construída somente no século XIX.

A noite a Place du Châtelet se ilumina ao lado do Théâtre du Châtelet, o teatro charmosão que abriga grandes espetáculos desde 1868.

Diz a lenda que a construção das primeiras versões desses “castelinhos” foi obra de um dos imperadores romanos, Júlio César ou Juliano - não se sabe bem qual deles - quando a localidade que se tornaria Paris ainda era conhecida por Lutèce. Essas fortalezas foram inicialmente construídas em madeira, sendo reerguidas em pedra somente após um ataque (felizmente sem êxito) dos normandos em 886.

Do outro lado do rio, entre as árvores: a Colonne du Châtelet, a Tour Saint-Jacques, o Théâtre du Chatelet, a Pont au Change... Ici c'est Paris!

Quando o rei dos Francos, Filipe Augusto (1165-1223), começou a expandir o perímetro de Paris, essas fortalezas acabaram sendo engolidas pela cidade, tornando-se inúteis para a defesa do que quer que fosse, e foi assim que o Grand Châtelet acabou sendo usado como sede da jurisdição da polícia da época - que além de garantir a ordem se encarregava de fazer cumprir a justiça criminal à moda da época. A Cour du Châtelet, no interior do castelo, passou então a abrigar prisões e salas de tortura.

Na gravura de Dupré, do livro 'Histoire de Paris' (J.A. Delaure e Gabriel Roux, 1853), uma imagem da entrada do Grand Châtelet, demolido a pedido de Napoleão Bonaparte em 1808.

Mas durante o reinado de Saint Louis o Grand Châtelet foi reformado e ampliado, passando a servir de habitação para os condes de Paris até o fim do século XII.

Se é bonita? A Place du Châtelet é uma verdadeira pintura, Joãozinho! Tanto que inspirou diversos artistas, como Antoine Blanchard (1910-1988) na obra 'Le Châtelet'.

E quem passa hoje pela Place du Châtelet mal consegue acreditar que bem ali aconteceram episódios históricos sangrentos: em junho de 1418, durante a guerra civil contra os Armagnacs, os Borguinhões cercaram o Grand Châtelet, massacrando todos os mais de 4000 Armagnacs que ali estavam presos. Em setembro de 1792, outra época, outro contexto, outra matança de presos - desta vez, entrando para a história como um dos episódios mais sombrios da Revolução Francesa.

O quê? Mas já cansou de andar?! Êita... Então faça uma pausa para bebericar um 'petit café' apreciando a vista da Place du Châtelet. Na foto, um momento de tranquilidade, mas se quer ver o que é movimento, experimente passar por aqui num sábado de Sol.

Mas felizmente toda essa história de fortalezas e prisões faz parte do passado. Hoje a Place du Châtelet é um local onde gente bonita do mundo inteiro se encontra para um bate-papo despreocupado ao redor das mesas dos cafés. Um lugar de convívio, onde a proximidade com a música, a beleza e o teatro se reflete na amizade estampada nos rostos das pessoas, onde as cadeiras dos cafés brotam nas calçadas e as caixas verdes dos bouquinistes estão ao alcance dos olhos, onde a beleza da cidade que sorri às margens do rio da minha vida não nos deixam enganar: Ici c’est Paris !

25 de outubro de 2009

74, rue du Cardinal-Lemoine

Sempre que passo pela place de la Contrescarpe no 5° arrondissement acabo, inevitavelmente, me desviando um pouco do caminho e me detendo, por alguns instantes, diante deste endereço.

Ernest Hemigway, um de meus escritores favoritos, viveu ali com Hadley, sua primeira esposa, entre janeiro de 1922 e agosto de 1923. Na época Hemingway era ainda um jovem aspirante a escritor que se mudara para Paris para escrever e tentar se lançar na carreira.

Ainda sem a barba característica, a fisionomia de Hemingway em sua temporada na rue du Cardinal-Lemoine.

O apartamento localizado no 3° andar do edifício era pequeno e muito simples, com apenas dois cômodos e uma cozinha. Ali Hemingway escreveu My Old Man durante o verão de 1922 - conto que faz parte de Three stories & ten poems, seu primeiro livro publicado em 1923.

Detalhe da capa de Three stories & ten poems, primeiro livro de Ernest Hemingway.

O imóvel ostenta em sua fachada uma placa onde podemos ler uma frase extraída do livro Paris é uma festa, que Hemingway escreveria anos mais tarde:

"Tel était le Paris de notre jeunesse au temps où nous étions très pauvres et très heureux." ou, na minha tradução livre: "Tal era a Paris da nossa juventude em um tempo onde éramos muito pobres e muito felizes."

A rue du Cardinal-Lemoine estende-se da margem esquerda do Sena até a place de la Contrescarpe. Seu nome rende homenagem ao cardeal francês Jean Lemoine.

O mestre trabalhando.

Hemingway acabou se mudando do apartamento para viver no Canada, por conta de um emprego que conseguira no jornal The Toronto Star em 1923.

74, rue du Cardinal-Lemoine
Metrô: Cardinal-Lemoine linha 10 ou Place Monge linha 7

14 de outubro de 2009

Le mur des je t'aime

Um muro que não demarca fronteiras. Que não impõe limites. Diferente de todos os outros muros que conheço, este muro parisiense não divide - ao contrário: aproxima as pessoas.

Assim é le mur des je t’aime. Um símbolo parisiense de união, amor e paz.

Localizado na pequena square Jehan Rictus, no coração de Montmartre, o muro foi idealizado por Frédéric Baron e inaugurado em 12 de outubro de 2000, reunindo 311 maneiras diferentes de dizer “eu te amo” - cada uma em um idioma ou dialeto diferente falado nas mais diversas partes do mundo.

Durante um passeio despreocupado por Montmartre, recomendo que passe pela place des Abbesses e se detenha por alguns instantes diante desse muro. Para mim, este é mais do que um simples local para ser visto em Paris - é um refúgio de sossego e reflexão.

Para saber mais, acesse o site (sim Joãozinho, existe um site oficial dedicado ao muro) clicando no link abaixo:

Le mur des jê t’aime
square Jehan Rictus

Metrô: Abbesses linha 12