31 de janeiro de 2012

A Paris do Marcão

Edmilson Siqueira

Marcus Vinicius, um amigo jornalista com quem trabalhei no século passado (Mon Dieu ! Faz 30 anos!) e que não via há um bom tempo, está em Paris no momento em que escrevo essas mal traçadas. Tudo bem, estar em Paris é estar em Paris e eu fico aqui morrendo de inveja e desejando a ele e à Vilma, sua mulher, que encham os olhos e a boca de todos os prazeres possíveis - visuais, táteis, gustativos e olfativos - que encararem na capital francesa. E sabemos que não são poucos. Tenho umas mil fotos que tirei lá e vivo copiando outras da rede, enchendo o HD do micro de paisagens e pessoas deslumbrantes que ajudam um pouco a matar as saudades.


Só que Marcão não é mole não. Logo que chegou a Paris me mandou um e-mail avisando que estava por lá e, sabendo dos meus amores pela cidade, perguntou se eu queria alguma coisa. Disse para ele me enviar as passagens que eu faria todos os pedidos pessoalmente... Só que, junto com o e-mail, encasquetou de enviar uma porção de fotos. Depois enviou mais. Recebi mais de duzentas já. E não são fotos comuns, daquelas que a gente encontra fácil por aí, que qualquer turista faz. São fotos de lugares que não fazem parte do roteiro das agências de viagem, fotos do cotidiano francês, foto do turista tirando foto, foto do bailinho no meio da rua (que eles chamam lá de guiguettes), - todos dançando num domingo com uma temperatura beirando zero grau - foto da loja abrindo ou fechando, foto do mercadinho de frutos do mar, do antigo bar de jazz, das bikes todas esperando para serem alugadas etc. e tal. E, detalhe, resolveu botar legendas em todas elas, assumindo o costume que o trabalho de editor nas redações dos jornais lhe impregnou.


Fiquei horas curtindo as fotos enviadas através do Picasa com o qual, ele confessou, aprendeu a mexer agora, pela pura necessidade de enviar os instantâneos para os amigos. Elas me fizeram sentir que estava passeando em Paris em pleno inverno, coisa que nunca fiz. Senti o ar gelado batendo naquele espaço entre o pescoço e o queixo que insiste em ficar descoberto, senti os pés meio gelados (eu sofro com meus pés no frio - estive a dois graus abaixo de zero em Catamarca, na Argentina, perto dos Andes e toda hora me refugiava no ar quente da van para “recuperar” os pés, mesmo com dois pares de meias e um sapato forrado), as mãos resguardadas em luvas e o inevitável gorro protegendo a cabeça já com poucos cabelos e as orelhas. Zezé viu as fotos comigo e se encolheu na cadeira, sentindo também o ar gelado europeu que ela conhece tão bem, pois viveu um ano em Londres, mais fria que Paris, e não sente saudade do inverno de lá, só de Londres.... Mas iria para Paris no inverno, o que deixou claro na emoção que emanava a cada foto, a cada detalhe que descobríamos, a cada cena invadida por um tímido raio de sol que, conforme disse a Zezé, “é lindo, clareia, mas não esquenta nada”.


As últimas fotos que mandou - devem vir mais, pois faltam uns 20 dias para eles voltarem - devem ter sido feitas sob o efeito da nostalgia. Marcão tem a minha idade, um ano a mais ou a menos, é jornalista e, como eu, deve ter visto muitas revistas na juventude, cheias de fotos do mundo. A maioria dessas fotos era em branco e preto - eu me lembro das revistas Cruzeiro, Fatos e Fotos e Manchete que meu pai trazia. Sempre as devorava com suas grandes fotos que nos davam a idéia de como era o tal do mundo por aí - retratavam desde as guerras que, sem o colorido ficavam mais violentas ainda, até o mundo glamoroso dos ricos e chiques, dos artistas e esportistas, dos aventureiros e dos poderosos. Marcão deve ter sentido saudade da juventude e decidiu fotografar tudo em branco e preto e sépia, se aproveitando dos recursos que a tecnologia atual oferece. Curioso: a tecnologia de hoje nos ajuda a retratar como no passado. O resultado foi uma coleção de Paris “dos anos 40, 50, do século passado”, como se folheássemos as páginas de um exemplar da coleção de O Cruzeiro ou da americana Life, pródiga em fotógrafos que viviam ganhando prêmios por aí.


Ou seja, além de matar a saudade de Paris - pelo menos visual - através da lente do Marcão, ainda pude sentir um pouco do gostinho da adolescência, quando via fotos parecidas nos grandes magazines da época.


A consequência maior de tudo isso é que me deu - e na Zezé também - muito mais vontade de voltar a Paris. Vamos começar a economizar rapidinho. Acho que em dois ou três anos a gente consegue os euros (ou seja lá a moeda que for, do jeito que o mundo está nunca se sabe) para passar mais uma temporadinha em Paris.

Fotos: Marcão

6 comentários:

Marcus Vinicius disse...

Prezado Ed,

Qual minha surpresa ao abrir somente hoje, dia 2 de fevereiro, minha caixa postal e me deparar com esse rasgado elogio do amigo sobre meu olhar de Paris.
No seu texto você me pôs a pensar realmente na nostalgia de uma Paris dos anos 50, 60 e 70 quando nossos cabeças infantis e juvenis eram povoadas com imagens dessa cidade através dos filmes a começar pelo magnífico “Acossado”, de Godard, “Guarda-chuvas do Amor” com a inesquecível musica de Michel Legrand - e que todas as vezes que encontro o Bebeto em frente ao seu piano peço para tocar -, sem falar, é claro, de Hiroshima, Mon Amour de Alain Resnais, o recente Paris, e os filmes de aventura com os mosqueteiros do rei em preto e branco, das tardes de domingo nas matinês e depois nas madrugadas sem som em frente as telas das tevês.
Sua crônica me fez pensar também em algo que sempre digo aos meus amigos, inclusive discutimos isso aqui em casa, duas semanas atrás com Marcius Freire da Unicamp que é professor de critica cinematográfica.
Paris é a capital mundial do cinema do mundo. Todas as semanas, de acordo com o Pariscope, são exibidos nas telas de todos os cinemas somente aqui na capital, mais de 800 títulos, sim títulos, de filmes diferentes. Duas das principais distribuidoras de filmes franceses têm redes de salas de cinema espalhadas por toda a cidade e todo o país. Marcius, que está aqui e fez pós- doutorado em Nova Iorque concorda. EUA tem marketing e só se vê filme americano (no Brasil também, infelizmente, com exceção em São Paulo, e cada vez menos com o fechamento do Belas Artes na esquina de casa).
Em Paris os títulos de filmes são do mundo inteiro.
Sua crônica me fez lembrar de como nós, quando jovens, pensávamos em vir a Paris um dia e como realmente é bela essa cidade, tanto pela riqueza arquitetônica como pela riqueza cultural. Flanar por aqui, como faço com minha pequena câmera digital é sempre uma experiência nova, mesmo que já tenha passado centenas de vezes na esquina do boule miche com boule saint germain. Cada dia um detalhe novo.
Curioso, e brinco muito com Wilma, é que toda vez que passo em frente a um café e vejo alguém escrevendo, costumo dizer que "esse ai viu muito filme francês".
Só por curiosidade, você sabia que todos os anos são apresentados às editoras francesas mais de 300 mil títulos de romances para serem editados? Esse número não está errado: são 300 mil títulos mesmo, conforme li há alguns anos numa grande reportagem do Le Monde.
Bem, querido amigo, como você vê, adorei sua crônica e venha mesmo se perder por essa cidade.
E mais: toda vez que estou aqui num domingo, aguardo ansioso o telefone do nosso querido J. Toledo, porque quando moramos aqui ele nos ligava todos os domingos de manhã para que contássemos sobre as nossas aventuras. Por isso, um saudoso brinde ao nosso querido Jotinha e vamos ver se nos encontramos para almoçar quando voltar a Campinas com a presença do nosso amigo Antonio Contente.
Um brinde à vida.
Marcão

Ana Bresil disse...

Viajei! Com a sua crônica e também com o comentário do Marcão.

bjs

Ednilson disse...

Prezados,

Sigo, não é à toa, o blog. Também sou um fissurado por Paris. Viajei, como disse Ana, com tudo o que li, inclusive o comentário do "Marcão". Paris é um sonho e, quando estamos lá, não o deixa de ser. É perfeita? Sim (rsrsrs). Me diga mal de muitas coisas, menos de Paris. Agradeço a Deus por me proporcionar conhecê-la há alguns anos, sendo que, como "Ed", estou economizando para voltar e poder agradecer novamente, perante à eterna igreja de "Nossa Senhora", ouvindo o cântigo gregoriano das 18h00 (exatamente) na "Sagrado Coração", jantando após ali mesmo atrás (restaurantes do "Monte dos Mártires), saindo para passear pelo Sena, vendo as luzes eternas da Torre, voltando para o hotel e curtindo uma visão da paisagem bucólica e envolvente. Acordar na manhãzinha seguinte, fazer uma boa caminhada por qualquer de suas ruas, visitar um pouquinho mais o museu construído sobre o antigo lugar onde, há um milênio, moravam "caçadores de lobos" (Louvre). Comer um bom "croissant", que só encontramos em Paris. Dar uma passeadinha pelos "Campos Elíseos" e uma voltinha pelo "Arco do Triunfo" e, num estalo, uma mirada novamente na Torre. "Merci, Monsieur Eiffel"! Ah, como não poderia deixar de ser, almoçar próximo ao Senado, passear no "Luxemburgo", curtir as maravilhas do "Panteão" e fazer outra caminhada (essencial). Já à tardezinha, dar-me a oportunidade de enamorar-me novamente pela eterna "Cidade-Luz", buscando descobrir outros encantos que outrora não tive oportunidade.
Abraços aos abençoados apaixonados por Paris.

Jackson Martins disse...

Marcus, Ana, Ednilson... Muitíssimo obrigado pelas palavras de vocês. Um grande abraço.

Wanice Bon'ávígo disse...

Querido Jackson
Seu blog é apaixonante!
Não somente um blog de dicas turísticas ou culturais tão somente, mas um relato apaixonado muito bem escrito e delicioso de ser lido! Essa postagem "arrasou". Sob medida para os nascidos em meados do século passado...
Estarei em Paris (pela segunda vez)em maio,se Deus quiser, saudando a primavera!
Estou montando meu roteiro e suas informações têm sido preciosas!

Ðú® disse...

Eu sempre digo pra minhas amigas - Um dia ainda vou rir disso em Paris. Eu preciso conhecer essa cidade. É muito fascinante.