23 de janeiro de 2009

Shakespeare and Company

Faz tempo que estou para publicar um artigo sobre a livraria Shakespeare & Co. Desta vez achei melhor ao invés de seguir a mesma linha de artigos que costumo escrever para o blog, publicar alguns trechos de um texto que escrevi sobre a livraria em 2007. Espero não decepcionar... Lá vai...

(...)Depois de um breve café me lancei na escuridão de uma manhã fria e preguiçosa que ainda estava por despertar - não sem antes colocar no bolso do casaco meu exemplar de Um livro por dia do jornalista canadense Jeremy Mercer, que eu lia com particular interesse. O livro trata da temporada parisiense do autor na livraria Shakespeare and Company e eu esperava conseguir avançar mais algumas páginas no metrô. Durante o período em que estive em Paris em 2002 a Shakespeare and Company era um dos lugares que eu visitava com bastante freqüência, mesmo que fosse apenas para estar ali e respirar um pouco daquela atmosfera insólita.

A Shakespeare and Company: um dos meus lugares preferidos no mundo.

A Shakespeare and Company é uma daquelas raras livrarias que têm alma. Alma que sussurra aos meus ouvidos quando estou lá perdido entre um pensamento e uma página de On The Road de Kerouac. Alma que se reflete nas pilhas de livros, novos e usados que estão espalhados e empilhados por todos os cantos onde se é possível equilibrar um livro: estantes, cadeiras, corredores, caixas de papelão e sobre as camas que George Whitman, o lendário e idiossincrático proprietário, reserva para todo jovem escritor faminto que estiver disposto a dormir mal, comer pouco e ajudá-lo a cuidar da livraria duas horas por dia. A única regra a cumprir: ler um livro por dia. Ali, jovens escritores têm a oportunidade de ler, pesquisar e criar. Podem se dedicar em tempo integral ao desenvolvimento literário e aos seus sonhos de se tornarem tão grandiosos quanto Ernest Hemingway, um dos ilustres freqüentadores da livraria - a Shakespeare and Company é o pano de fundo de Paris é uma festa, uma das magistrais obras de Hemingway. Muitos dos que por ali passaram jamais conseguiram publicar uma única linha sequer, mas muitos se tornaram escritores e editores renomados, como Paul Abelman, Henry Miller, Anaïs Nin, Allen Ginsberg... E Jeremy Mercer - claro. A livraria ainda abriga raridades, como manuscritos de escritores célebres, as autobiografias de cada uma das centenas de pessoas que ali se hospedaram e parte da biblioteca pessoal de Graham Greene, que George arrematou na ocasião da morte do escritor. É na Shakespeare and Company que começa o filme Antes do Pôr do Sol, com Ethan Hawke e Julie Delpy.(...)

Deus abençoe essa bagunça! Um dos dormitórios da Shakespeare & Co.

(...)Imediatamente pensei que não existe melhor maneira de se viver a história de um livro do que estando dentro dela. Saltei na estação Cité agradecendo ao acaso pela minha distração, tão oportuna, me proporcionar mais um de meus pouco freqüentes passeios inevitáveis. Sai da estação bem no mercado de flores da Île de Cité - o maior e mais tradicional mercado de flores e plantas de Paris. Tão logo ganhei a calçada fui saudado pelos sinos da catedral de Notre Dame.

Ainda eram 8 horas, e quando virei a esquina pude ver a linda fachada da Notre Dame se erguendo majestosa em meio ao frio e à escuridão da manhã. Havia poucas pessoas nas ruas e percebi que a catedral ficava ainda mais bonita com sua entrada completamente isenta dos milhares de turistas que a visitam todos os dias. Segui pela face norte da catedral, avançando pela rue du Cloitre Notre Dame. Passei pelos seus cafés e lojinhas de souvenir ainda fechados. Virei na Square Jean XXIII e parei sobre a ponte para apreciar o amanhecer num dos trechos mais bonitos do rio Sena.

O céu estava cinza, como costuma estar nesta época do ano em Paris, e um prenúncio de chuva ia se tornando mais iminente a cada instante. Mas por um momento o Sol decidiu aparecer, conferindo às nuvens sobre a extremidade Leste do rio Sena um tom alaranjado como eu nunca vira antes - jamais pensei que o céu pudesse se adornar com uma cor daquelas. Os raios do Sol, ao atingirem as maciças estruturas da Notre Dame, tingiram suas grossas paredes em vários tons de laranja. Decididamente eu não contava com esse espetáculo logo pela manhã.(...)

Aqui, uma vista do salão principal da livraria.

Segui pela outra margem do rio Sena em direção ao Café Panis - o ponto de encontro diário dos escritores que se hospedam na Shakespeare and Company. De frente para o Panis lembrei-me da descrição que o livro faz sobre o lugar, e pude ver as quatro cadeiras altas que são objetos de disputa entre os escritores para que possam fazer suas anotações sobre o pesado balcão de madeira enquanto tomam um petit café - no Panis o café servido no balcão custa metade do que custaria na mesa, e isso faz muita diferença para um escritor em inicio de carreira que trabalha apenas para ter onde dormir e o que comer. Pude ver através da porta envidraçada do café a maciça estante cheia de livros, descrita em detalhe por Mercer - detalhes que viviam apenas na minha imaginação e agora estavam ao alcance das mãos.

Panis, o ponto de encontro dos jovens escritores da Shakespeare & Co.

Atravessei a rua e depois dela o pequeno parque municipal que guarda a árvore mais velha de Paris. Plantada em 1602, ela precisa hoje ser sustentada por escoras de madeira e concreto para não cair. Mas segue imponente, com suas poucas folhas já secas pelo efeito climático do Outono francês. Ao sair do parque, lá estava minha Meca literária: Shakespeare and Company.

Ninguém conhece Paris como ela: Madame Robinier vive na cidade há mais de 400 anos.

Passei pela fonte Wallace e sentei-me defronte a livraria sob uma das cerejeiras que fazem uma agradável sombra sobre leitores que, como eu, se esquecem da vida ao folhear os livros expostos na calçada. Observei com atenção a pequena porta verde ainda trancada. A porta por onde passaram grandes nomes da literatura. A porta que abriga tanta vida e tantos sonhos. Acabei por descobrir, meio sem querer, que a estreita estante externa onde são colocados os livros durante a atividade da loja servia também como caixa de correio durante a madrugada. Em uma das prateleiras repousava uma única carta endereçada a George Whitman.

(...)Admirei o interior da loja através da vitrine. Pude ver diversos livros sobre o comunismo e algumas pesquisas literárias sobre a vida de escritores outsiders como Jack Kerouac e Charles Bukowski. Ainda levaria algumas horas para que os residentes da livraria despertassem para abrir a loja - a Shakespeare and Company abre diariamente do meio-dia à meia-noite, inclusive aos domingos e feriados.

Saindo do mítico número 37 da rue de la Boucherie, andei até a rue Saint Jacques para encontrar o bar Polly Magoo - o preferido de Jim Morrison, que viveu em um hotel próximo e onde os escritores da Shakespeare and Company fazem seus happy hours em comemorações especiais. Atravessei a Saint Jacques para entrar na rue de la Huchette, atualmente a rua dos restaurantes gregos para turistas. Nessa estreita rua, onde os aliciadores de turistas quebram pratos de cerâmica barata na tentativa de chamar a atenção para seus restaurantes, em outros tempos viveu um jovem soldado do exército francês chamado Napoleão Bonaparte, na casa de número 10.

Polly Maggo era o bar parisiense favorito de Jim Morrison, o Rei Lagarto.

E sozinho, caminhando por entre ruas estreitas, esta manhã eu percebi, talvez mais do que nunca, o quanto amo esta cidade e me encanto com ela. Quanta vida há em Paris. Vida em plenitude e essência. Quanta história presenciou cada pedra daquelas calçadas por onde andei, cada árvore pela qual passei, cada degrau das escadas da minha livraria de sonho. O que aquelas paredes poderiam me contar? Hoje se fez nítida para mim a sensação de que em Paris não é preciso muito para ser feliz.(...)

Eu ainda me recordo da primeira vez em que entrei na Shakespeare and Company. Com uma expressão abobalhada de espanto e admiração, lembro-me de ter lido uma frase escrita em um degrau de pedra da livraria: “Viva para a humanidade”. E sobre uma passagem: “Trate bem os estranhos, eles podem ser anjos disfarçados”. Esses são os lemas da Shakespeare and Company. E é exatamente isso o que a alma da velha livraria sussurra ao meu coração quando estou ali.



No video, uma breve apresentação da Shakespeare and Co. por Sylvia Whitman, filha de George Whitman e atual gerente da loja.

Tel.: 01 4325 4093
Metrô: Saint-Michel linha 4

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3 comentários:

bruno disse...

fantástico!

Cláudia disse...

Ótimo texto.Fui seguindo mentalmente seu itinerário e me senti em Paris.Só fui conhecer esta livraria depois de assistir ao filme Antes do Pôr-do-Sol que junto com o que o antecedeu é muito bom.Desde então, me interesso por tudo que diz respeito à ela.Já li "Um livro por dia" e coincidentemente,esta semana uma amiga me emprestou"Shakespeare and Company-Uma livraria na Paris do entre-guerras" de Sylvia Beach,mas ainda não comecei a leitura.

Cláudia Ohira disse...

Sem palavras para expressar o que senti ao ler essa matéria que, além de muito bem escrita, ainda traz uma delicadeza e uma riqueza de detalhes que me transportaram a Paris. Até parece que eu estava ali com você, caminhando por aquelas ruas. Ir a Paris e não visitar a livraria Shakespeare & Co é uma gafe imperdoável, que quase cometi. Confesso que não tinha conhecimento dessa preciosidade, mas minha irmã é super fã do filme “Antes do Pôr do Sol” e fazia questão de passar por lá. Sorte minha! Infelizmente, não tive muito tempo para poder curtir, tanto quanto você, esse momento mágico de andar por aquelas redondezas com calma, curtir todas aquelas obras, mas deu para sentir o quanto aquele ambiente é especial. E para quem ama ler, como eu, aquilo ali é simplesmente um paraíso!!!

“Hoje se fez nítida para mim a sensação de que em Paris não é preciso muito para ser feliz...” – engraçado, a primeira frase que saiu de minha boca quando saí do hotel e fui caminhar pelas redondezas foi “não dá pra se ter mau humor em Paris”. Por onde olhamos há beleza, eu sorria o tempo todo, completamente embasbacada, apaixonada, encantada... talvez os parisienses tenham me achado maluca... he he he

Obrigada por nos brindar com esse texto. Confesso que meus olhos encheram-se de lágrimas de tanta emoção. Valeu mesmo!