24 de setembro de 2008

Le Petit Journal Saint-Michel

A primeira vez em que entrei no lendario Le Petit Journal de Saint-Michel foi ha 5 anos. Comemorava meu primeiro aniversario longe de rostos conhecidos. Foi quando então decidi me presentear com uma bela noitada de jam session. Durante a tarde, no final do expediente, procurei o endereço nas paginas amarelas, anotei tudo num papelzinho e corri para o Quartier Latin com a adrenalina saindo pelos poros.

Quando cheguei no lugar pensei ter errado o endereço. Deparei-me com um pequeno bar estreito e vazio. Nele, apenas um maciço balcão de madeira escura guarnecido por um bartender mais maciço ainda, que me olhou de canto de olho enquanto enxugava um copo com o vigor de quem combatia o exército inimigo. Perguntei, meio encabulado e com meu francês sofrivel da época, se estava no lugar certo - a essa altura eu ja estava com o tal papelzinho à mão, no qual escrevi: Concert tous les soirs a partir de 21h15. Caramba! Ja eram 21h30 e o lugar ainda estava vazio! E aquela noite não era uma soir qualquer...

O grandalhão então saiu detras do balcão, me perguntando - em inglês - se eu tinha vindo para o concerto. Abri um sorriso e fiz que sim com a cabeça enquanto o Yes! me saia por entre os dentes. Em resposta ouvi apenas -C'mon boy, enquanto fui conduzido para uma pequena escada num canto do bar, como se estivesse indo em direção ao porão - e estava. O espirito do jazz habita naquela cave.

A cave do Le Petit Journal tem pé direito baixo, paredes rusticas e uma acustica inacreditavel. Os musicos não se apresentam num palco, mas no mesmo nivel do salão com mesas dispostas ao redor. Para quem quer um cantinho um pouco mais reservado, existem algumas mesas no fundo da cave dispostas como se fossem carteiras escolares.

Soube depois que o Le Petit Journal tem outro endereço em Montparnasse - com um salão amplo, palco bem montado, decoração caprichada e um ambiente legal para comportar grandes grupos. Assim, acho que fiz meu debut no jazz parisiense no endereço certo. Portanto, se você busca boa musica num ambiente bonito e confortavel, seu lugar é no Le Petit Journal Montparnasse. Mas se como eu, prefere um ambiente mais rustico e improvisado como nos antigos clubes de jazz, a cave de Saint-Michel é incomparavel.

Localizado pertinho do Jardin du Luxembourg, o Le Petit Journal Saint-Michel foi fundado em 1971, e rapidamente tornou-se uma das grandes referência parisienses do jazz tradicional de New Orleans, graças aos convidados de peso que tocam ali. Alguns musicos famosos apresentam-se ali com regularidade, como Claude Bolling, Christian Morin, Maxim Saury, Marcel Zanini e Claude Tissendier. A cave tem capacidade para apenas 80 pessoas e nos remete à Saint-Germain des Prés dos anos 50.

No cardapio, pratos da tradicional culinaria francesa e uma excelente carta de aperitivos. O atendimento é bem bacana e caloroso. Confesso que acho o preço do menu um pouco salgado. Mas vale a penas ir para la apos o jantar e bebericar uma biritinha enquanto ouve musica da melhor qualidade.

Le Petit Journal Saint-Michel
71 boulevard Saint-Michel
Tel.: 01 4326 2859
Metrô: Cluny-La Sorbonne linha 10
RER: Luxembourg linha B
Ônibus: Luxembourg linhas 21, 27, 38, 82, 84 e 85
http://www.petitjournalsaintmichel.com/

Um comentário:

Edmilson Siqueira disse...

Como você escreveu no post sobre o Petit Journal Saint-Michel que havia um outro Petit Jounal em Montaparnasse, eu me lembrei que fomos lá, Zezé e eu, duas vezes. Foi a casa de jazz mais perto do hotel em que estávamos, em 2002.
Antes, telefonamos para saber se o grupo com aquele nome estranho era mesmo de jazz. A conversa foi em inglês, com a Zezé se esforçando para entender (ela fala bem, quem não falava direito era o francês do outro lado da linha). No fim da conversa, depois de saber do horário e do preço, ela perguntou se era um grupo de jazz. A resposta foi um "oui", mas Zezé me disse que não sentiu muita firmeza não.
Ali pelas 9h chegamos ao Petit Jounal de Montparnasse. Como você descreveu, ele é bonito, tem boas acomodações mesas com cadeiras e sofás, um bom palco com piano e alguns cartazes - acho que de grandes momentos da casa - fazendo parte da decoração. Lembro de Dizzy e Armstrong em dois deles.
Sentamos, a casa estava uns 30, 40% ocupada, e esperamos o show. Entraram duas mulheres loiras e altas vestindo um traje típico de alum país nórdico, uma com um violão e a outra com um instruumento de percussão que eu nunca tinha visto. E começaram a cantar. Peguei ofolheto sobre a mesa e ali entendi o que estávamos começando a presenciar: uma dupla folclórica de alguma região entre Moscou e a Sibéria.
Ficamos o tempo suficiente para esvaziar a meia garrafa de vinho que tínhamos direito com o ingresso, comemos os amendoins que estavam num pratinho e fomos embora.
Dia seguinte, li na programação da casa que havia no hotel, que iria tocar um trio de jazz - piano, contrabaixo e bateria, com o nome de cada músico e a palavra "jazz" no nome do grupo. Ainda assim confirmei tudo na portaria do hotel e lá fomos nós de novo para Le Petit Journal de Montparnasse.
Só que aí foi jazz mesmo, com o trio se apresentando para um público bem maior, tocando alguns clássicos do gênero e com direito a canjas de outros músicos que estavam na platéia. Ficamos até por volta de 1h30 e voltamos a pé para o hotel. Desta vez felizes e, como da outra vez, sem nenhum medo.